02 JUL 6ªfeira 21h00

Virtuosismo Nocturno

 
 
::Programa::
 
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)  
     “Eine kleine Nachtmusic” (Pequena Serenata Nocturna)
     1. Allegro
     2. Romanze: Andante
     3. Menuetto: Allegretto
     4. Rondo: Allegro
 
Johann Baptist Georg Neruda (1708-1780)
     Concerto em mi bemol maior, para Trompete e Orquestra 
     1. Allegro
     2. Largo
     3. Vivace (Tempo di Menuetto)
 
Alexander Borodin (1833-87)  
     Notturno
 
Anton Arensky (1861-1906)  
     Variações sobre um tema de Tchaikovsky, Opus 35a
 
Jean-Baptiste Arban (1825-1889)  
     Fantasia e Variações sobre “O Carnaval de Veneza”, 
         para Trompete e Orquestra
 
::Notas ao Programa::
 
Uma serenata com clarões de ‘clarim’
 
Da ‘kleine Nachtmusik’ de Mozart, uma das suas obras mais famosas, não se sabe por que, nem para quem foi escrita. O género ‘serenata para cordas’ era, na Viena de 1787, já uma relíquia – para Mozart, evocava o tempo da sua juventude em Salzburgo. O que o terá levado então a interromper a composição do ‘Don Giovanni’ para escrever obra tão “deslocada”?
‘Pequena música nocturna’ assim a baptizou Mozart no seu catálogo. E ‘pequena’, certamente por ser bem mais modesta de dimensão, se comparada às grandes serenatas dos anos de Salzburgo, como a ‘Haffner’ ou a ‘Posthorn’.
Podemos ver nela uma homenagem-despedida ao seu pai, Leopold, falecido no final de Maio desse ano, e durante tantos anos violinista na orquestra da Corte de Salzburgo. E poderá estar aí, no pai-violinista e pedagogo do violino, a razão da escolha das cordas como instrumentação (em vez do bem mais usual ensemble de sopros) da que seria a sua última Serenata.
De J. B. G. Neruda (1707/08-c. 1780), violinista boémio que alcançou o invejável posto de concertino da Orquestra da Corte de Dresden (uma das melhores da Europa), ouvimos o Concerto para trompete, cordas e contínuo, em mi bemol maior. Este concerto, originalmente para trompa de caça, deverá datar de cerca de 1750, ou seja, da fase inicial da presença de Neruda na Orquestra de Dresden. O manuscrito esteve longamente desaparecido e reapareceu só em 1968, sob a forma (transcrita) de Concerto para trompete, tendo sido assim que adquiriu presença no repertório. É uma obra de factura muito barroca, na tradicional sucessão de andamentos rápido-lento-rápido, com ‘cadenze’ (solos) em todos os andamentos, havendo muito pouca interacção entre solista e orquestra. Em termos de escrita, é interessante o facto de Neruda fazer derivar dos 2 gestos iniciais da obra a maior parte do material dos 3 andamentos. A escrita para o trompete é exigente, principalmente no andamento inicial.
De Alexander Borodin (1833-87), o ‘Notturno’ provém directamente do seu 2.º Quarteto de cordas, de 1881, do qual constitui o 3.º andamento. Trata-se de um ‘Andante’, em lá maior, numa forma que mistura o ABA com a forma-sonata.
O discurso, sempre levado com grande sentido de equilíbrio e de definição de uma atmosfera, é dominado por dois elementos temáticos, cuja relação é, ora pacífica, ora tensiva: o 1.º, bastante conhecido, é apresentado logo de início pelos violoncelos, no registo agudo, ‘cantabile ed espressivo’, sendo depois tomados pelos violinos I. Já o 2.º, num ‘tempo’ mais rápido, é uma figuração em semicolcheias ascendentes em ‘spiccato’, com trilos na terminação, dado alternadamente por violinos I e II. A síntese dá-se na secção final, onde a 1.ª parte do tema 1 vai passando pelos vários instrumentos, intercalada pela figuração do tema 2. No final, os instrumentos (sem contrabaixos) vão para os agudos e aí se esfuma o som.
De Anton Arensky (1861-1906), ouvimos as ‘Variações sobre um tema de Tchaikovsky, op. 35a’, para cordas (de 1894). O tema provém da canção ‘Lenda’, n.º 5 das ‘16 Canções para crianças, op. 54’, de Tchaikovsky, melodia que Arensky já utilizara no andamento lento do seu 2.º Quarteto (aí como um ‘in memoriam’ a Tchaikovsky, recentemente falecido). O tema é um ‘Moderato’, em mi menor (2/4) conduzido pelos violinos I, seccionado em antecedente-ponte-consequente. Seguem-se 7 variações, organizadas, da n.º 2 à n.º 7, pelo princípio de pares ‘vivo/lento’. Destaque para o carácter sinfónico da Var. 4, para o ímpeto da n.º 6 e pelo contraste da 7.ª, na qual todos os instrumentos usam surdina. Na Coda, uma transição que lembra canto ortodoxo traz de volta o antecedente do tema, que é levado progressivamente dos agudos para os graves, terminando nos violoncelos/contrabaixos.
De Jean-Baptiste Arban (1825-89), importante pedagogo do trompete da segunda metade do século XIX, ouve-se a ‘Fantasia e Variações sobre ‘O carnaval de Veneza’’, para trompete e orquestra, que figura, entre outros estudos de virtuosidade, no seu ‘Grande méthode complète pour cornet à pistons et saxhorn’, publicado em 1864.
A uma Introdução ‘Allegretto’, segue um ‘Allegro’, com o tema. As variações 1-5 vão num ‘crescendo’ contínuo de dificuldades de escrita para o trompetista. A Variação 6 permite um fugaz recobrar de fôlego – e bem necessário, pois as Var. 7 e 8 inovam com a ilusão de escrita a 2 vozes para o instrumento! Uma coda inexorável leva a obra ao seu termo, com o trompete a terminar perto do limite agudo da sua tessitura.
 
Bernardo Mariano