03 JUL Sábado 21h00

Concerto Encerramento

Tchaikovsky & Schostakovich
 
 
::Programa::
 
Pyotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893)  
     Serenata Opus 48
     1. Pezzo in forma di sonatina. Andante non troppo – Allegro moderato
     2. Valse. Moderato. Tempo di Valse
     3. Elegia. Larghetto elegiaco
     4. Finale (tema russo). Andante – Allegro con spirito
 
Dmitri Schostakovich (1906-1975)      
     Concerto N.º 1, Opus 35, para Piano, Trompete e Orquestra
     1. Allegro moderato
     2. Lento
     3. Moderato
     4. Allegro con brio
 

::Notas ao Programa::

Rússia entre romântica e rebelde
Serenata Opus 48

É difícil imaginar que Tchaikovsky tivesse escrito esta obra tão delicada praticamente ao mesmo tempo que a ‘Abertura Solene 1812’, mas foi isso, de facto, que aconteceu. A composição foi aliás bastante rápida: nem um mês entre Setembro e Outubro de 1880. No final de Outubro já estava a enviar a cópia limpa ao seu editor Jurgenson e em Janeiro de 1881 já havia obra impressa. Pelo meio, já fora ouvida, no final de Novembro, no Conservatório de Moscovo, por uma orquestra de professores e alunos da instituição. A estreia pública ocorreria 11 meses depois, em São Petersburgo.
O 1.º andamento tem uma Introdução majestosa, a que segue um ‘Allegro moderato’ com 2 temas. O carácter da Introdução regressa perto do final e liga à conclusão em dinâmica ‘fortissimo’’. O 2.º andamento é um ‘tempo de valsa’, indicado ‘dolce e molto grazioso’, e com efeito vai ser o balanço dessa dança a dominar todo o andamento (incluindo a secção central), com uma escrita que trai o compositor de bailados e que retém por vezes uma leveza vivaldiana.
Coração emotivo da obra é o ‘Larghetto elegiaco’, cujo material temático principal é formado por uma escala ascendente e por um canto de perfil ortodoxo. A secção central é mais desanuviada e lírica (e algo “serenadística”). Uma secção com todos os instrumentos com surdina faz a transição para o regresso do Tempo I, tocado ainda com as surdinas, o que empresta uma atmosfera particular a esse momento. No final, todos excepto contrabaixos se perdem no registo agudo, em sons harmónicos muito ténues.
O Finale abre com um ‘Andante’ que “prolonga” o andamento anterior, após o que entra o ‘tema russo’, vindo da canção ‘No prado verde’. Forma-se então o tema do ‘Allegro con spirito’, esse derivado da canção ‘Sob a macieira verde’, que sugere danças de roda campesinas ao ar livre e que vai dominar o andamento (o tema 2 é bastante mais discreto). A este ambiente descontraído vem inesperadamente uma ‘ponte’ trazer de novo o clima da Introdução ao 1.º andamento, sendo que o tema desta regressa tal qual num ‘tempo’ mais lento, em dinâmica generosa. Aqui opera Tchaikovsky a metamorfose para o tema da ‘macieira verde’, mostrando como são afinal aparentados os dois! E é esse tema, numa leveza balética, que conclui a obra.

Concerto para Piano, Trompete e Orquestra, Opus 35

O 1.º Concerto para piano de Schostakovich é uma obra singular no repertório concertístico para piano, pelo facto de ter o trompete como inesperado 2.º instrumento concertante e por usar liberalmente a citação, a paródia/sátira e o burlesco como agentes expressivos predominantes no discurso, razão para o próprio compositor afirmar, a respeito da sua criação, tratar-se de “um pássaro de outra plumagem” por comparação com os concertos de Rakhmaninov ou de Tchaikovsky, por exemplo.
Em termos contextuais, a composição do Concerto, escrito entre Março e Julho de 1933, seguiu quase imediatamente a conclusão de duas obras de grande elaboração e elucubração: a ópera ‘Lady Macbeth de Mtsensk’ e os ‘24 Prelúdios’ para piano, o que poderá ajudar a explicar o seu carácter descontraído e irreverente. Em termos pessoais, Dmitri tinha-se casado pouco antes (Maio de 1932) com Nina Varzar. E tenhamos presente um compositor precoce de apenas 26 anos e formado mentalmente pelo clima revolucionário, idealista e iconoclasta dos primeiros tempos da União Soviética.
Se a parte de piano traduz como uma fotocópia a atitude interpretativa de Schostakovich-pianista (uso percussivo do instrumento, estilo e harmonias secas, ímpeto rítmico, ausência de melodismo, estética anti-sentimental), já a linguagem parece reunir os gostos de Schostakovich nas músicas ligeiras, indo buscar à sua experiência de acompanhar ao vivo a projecção de filmes mudos, a sua colaboração com a cena teatral alternativa de Leninegrado ou o seu gosto pela música de cabaret e danças de salão – ele que adorava ídolos desse meio como Pyotr Leshchenko ou Alexander Vertinsky. E, pelo meio, aparecem fragmentos e/ou alusões de Haydn, Beethoven, Mahler, Bach, Hindemith. Ou seja, uma obra subversiva ‘to say the least’!
Outra influência que arriscamos: o ‘Concerto em sol’ de Ravel. Estreado em Janeiro de 1932, a edição em partitura (Durand) e a 1.ª gravação (com Pedro de Freitas Branco a dirigir!) são ainda desse ano. É, pois, provável que Schostakovich conhecesse a obra.
A estreia pública do Concerto, op. 35 viria a dar-se a 15 de Outubro de 1933, na então Leninegrado, pela Filarmónica local, dirigida por Fritz Stiedry, com o compositor ao piano e Alexander Schmidt no trompete.

Bernardo Mariano