18 JUN 6ªfeira 21h00

Piazzolla 100

Centenário do nascimento
Astor Piazzolla
 
Marcelo Nisinman Bandoneón
Karen Gomyo Violino
Tiago Pinto-Ribeiro Contrabaixo
Rosa Maria Barrantes Piano
Alberto Mesirca Guitarra elétrica
 
::Programa::
 
Astor Piazzolla (1921-1982)
        Verano Porteño
        Escualo
        Adiós Nonino (arr. Marcelo Nisinman)
        Otoño Porteño 
        Jeanne y Paul (arr. Marcelo Nisinman)
        Kicho
        Invierno Porteño
        Michelangelo 70 
        Oblivion (arr. Marcelo Nisinman)
        Primavera Porteña
 
 
::Notas ao Programa::
 
As ‘Cuatro Estaciones Porteñas’ foram compostas em momentos diferentes e podem ser tocadas isoladamente. São retratos da cidade de Buenos Aires (cujos habitantes são os ‘porteños’) em cada estação do ano. A composição destas peças (o ‘Verão’ é de 1965, as restantes de 1969-70) envolve a da criação da ópera-tango ‘Maria de Buenos Aires’, pelo que se pode afirmar que, ao passo que ‘Maria’ é um retrato íntimo da cidade, uma descrição da sua personalidade e condição, as ‘Cuatro Estaciones’ são um retrato exterior da urbe argentina e dos que ali vivem, espécie de fotografias captadas pela sensibilidade de Piazzolla e cuja paisagem de fundo, cujas cores são moldadas pela passagem das estações.
A instrumentação destas peças não é fixa, mas inicialmente foram ouvidas na seguinte combinação: o ‘Outono’ e a ‘Primavera’ para bandoneón, violino, piano, guitarra eléctrica e contrabaixo; o ‘Inverno’ apenas substituindo o violino por uma viola (de arco) em relação à instrumentação anterior; e o ‘Verão’ (peça mais extensa), o mais “sinfónico”, pois prevê bandoneón, quarteto de cordas, percussão, guitarra eléctrica, piano e contrabaixo. Ou seja, as três primeiras foram pensadas para o ‘Quinteto’, a sua formação de referência ao longo da década de 60, ao passo que o ‘Verão’ também tem em mente o ‘Conjunto 9’ (ou Noneto), formação que ele criou em 1971.
A estreia das ‘Quatro Estações’ de Piazzolla deu-se a 19 de Maio de 1970, no Teatro Regina, em Buenos Aires, na ordem Outono-Inverno-Primavera-Verão, ou seja, “sincronizada” com a sua congénere boreal – as ‘Quatro Estações’ de Vivaldi (que começam com a ‘Primavera’). Mas são possíveis ordenações alternativas, como a que neste concerto escutamos.
Falemos agora das restantes seis peças em programa, com uma nota preliminar sobre Marcelo Nisinman, autor dos arranjos de três delas. Nisinman é o único bandoneonista do qual se pode dizer que foi discípulo do próprio Piazzolla. Este aliás não lhe poupava elogios, declarando-o “o futuro do bandoneón” e estimulando a sua audácia interpretativa e criativa. Com essa “herança” em mente, comecemos pelos três arranjos de Nisinman: ‘Adiós Nonino’ é a peça mais famosa de Piazzolla, escrita no Outono de 1959, em Nova Iorque. É uma homenagem ao pai, Vicente, falecido pouco antes vítima de um acidente de bicicleta e que no círculo familiar tinha o nome afectuoso de ‘Nonino’, por já ser avô (vem do italiano ‘nonno’). Ela retoma o tango ‘Nonino’, de 1954 (dedicada ao pai), mas acentuando o lado melancólico da melodia original. Foi uma das primeiras peças a ser gravada pelo primeiro Quinteto de Piazzolla.
‘Jeanne y Paul’ foi originalmente destinada às personagens desse nome (protagonizadas, respectivamente, por Maria Schneider e Marlon Brando) do famoso filme ‘O último tango em Paris’ (1972), para o qual Piazzolla deveria escrever a banda sonora, mas, por se ter atrasado na conclusão da mesma, viu a tarefa ser entregue a Gato Barbieri. Viria a aparecer, quatro anos após, na banda sonroa de ‘Cadaveri eccelenti’, de Francesco Rosi. Também destinada ao cinema foi ‘Oblivion’, no caso, ao filme ‘Enrico IV’ (1984), do realizador Marco Bellocchio.
‘Michelangelo ‘70’ é uma peça de 1986 que integrou o álbum ‘Tango: Hora Zero’, protagonizado pelo seu último quinteto, o Quinteto Nuevo Tango. Por fim, ‘Escualo’ e ‘Kicho’ são homenagens de Piazzolla a músicos que tocaram consigo. ‘Escualo’ (refere-se aos tubarões) remete para a casa de férias de Piazzolla em Punta del Este (a leste de Montevideu) e às grandes pescarias que ali fazia com os amigos. Dedicou-a ao violinista Fernando Suarez Paz (falecido a 12 de Setembro de 2020), membro do Quinteto Nuevo Tango. Ela obedece ao ritmo candombe típico do Uruguai, com acentuações em 1, 4 e 7 dentro de um compasso 4/4. Por fim, ‘Kicho’ homenageia o seu contrabaixista Enrique ‘Kicho’ Diaz, que tocou com Piazzolla em continuidade entre 1960 e 1972, incluindo na estreia de ‘Maria de Buenos Aires’. No ano 2000, ‘Kicho’ foi declarado ‘Contrabaixista de tango do século’ pelo governo da cidade de Buenos Aires.
 
Bernardo Mariano