25 JUN 6ªfeira 21h00

Recital de Piano

Bach, Beethoven,
Brahms e Berg
 
 
::Programa::
 
Johann Sebastian Bach (1685-1750)
Prelúdio e Fuga, BWV 849, N.º 4 do 1º Livro do “Teclado Bem Temperado” 
 
Ludwig van Beethoven (1770-1827) Sonata N.º 31, Opus 110
     1. Moderato cantabile molto espressivo 
     2. Allegro molto
     3. Adagio ma non troppo – Arioso dolente – Fuga. 
     Allegro ma non troppo
 
Johannes Brahms (1833-1897) Intermezzo, Opus 76, N.º 3
     Intermezzo, Opus 117, N.º 3
     Capriccio, Opus 116, N.º 7
 
Alban Berg (1885-1935) Sonata, Opus 1
 
::Notas ao Programa::
 

Viagem pelos B’s da música

Bach, Prelúdio e Fuga BWV 849
O Prelúdio, lento, em compasso 6/4, tem 3 elementos temáticos, apresentados logo de início em alternância nas duas mãos.
Termina em dó sustenido maior.
O tema da Fuga, a 5 vozes, é composto pelas quatro notas iniciais, as quais formam o motivo barroco da ‘cruz’. A cada nova entrada, ele é ouvido numa zona mais aguda. Aparecem depois dois contratemas: um desenho fluido de colcheias no soprano e um “tema-chamamento”, no tenor. Tema e contratemas vão-se apoderando do discurso até culminar num ‘stretto’ (entradas temáticas muito próximas ou mesmo sobrepostas). No final, baixo e soprano mantêm uma nota-pedal, conduzindo as outras vozes à cadência final, de novo em dó sustenido maior.

Beethoven, Sonata Opus 110
A Sonata em lá bemol maior, op. 110 foi concebida em conjunto com as op. 109 e 111, formando o todo um tríptico que condensa a totalidade das preocupações do último Beethoven em relação à escrita para piano solo. Elas datam de 1820-22, sendo que o autógrafo da op. 110 tem marcado o dia de Natal de 1821 como data de conclusão. Foi editada em Paris, em 1822, por Schlesinger. Organiza-se em três andamentos, com um ‘Scherzo’ como andamento central e um andamento final dominado pela técnica contrapontística da fuga.
Peculiar ao 1.º andamento é o seu lirismo luminoso, franco e generoso. Ele assenta sobre três temas principais: os dois que encadeiam logo de início e outro, que surge mais tarde, sobre baterias de acordes e com um carácter hínico. O ‘Scherzo’ (na forma ABA) joga na parte A com contrastes de registos e dinâmicas, numa escrita vertical e acórdica, e na parte B assume um carácter mais brincalhão, parecendo a mão direita jogar “à apanhada” com a esquerda. O andamento final é um organismo auto-suficiente, embora haja conecções com/derivações do andamento inicial. Dominam-no duas fugas, sendo que o tema da 2.ª é a inversão do tema da 1.ª. Precede cada uma delas um ‘Adagio’ (indicado ‘arioso dolente’). A 2.ª fuga será a vitória definitiva do espírito, vindo a culminar na tonalidade base da obra para a irradiante peroração final.

Brahms, Opus 76/3, 116/7 e 117/3
As 8 Peças para piano, op. 76, datam de Junho de 1878. A n.º 3, um Intermezzo em lá bemol maior, tem a indicação ‘Grazioso’, mas esta prende-se mais ao tempo que ao carácter, pois este deverá antes ser procurado na indicação ‘anmutig, ausdrucksvoll’ (‘sedutor/encantador, expressivo’). São meros 30 compassos, mas com a riqueza concentrada de ideias habitual em Brahms e que pode ser resumida na alternância (e fusão final) de vários pares opostos, unificando-as a inefável poesia da sonoridade e das texturas.
As 7 peças para piano, op. 116 e as 3, op. 117 datam do verão de 1892. A op. 116 n.º 7 é um ‘Capriccio’ com carácter de Scherzo, marcado ‘Allegro agitato’, em ré menor, e organizado na forma ABA, com uma secção conclusiva.
Também num ABA, a op. 117 n.º 3 (em dó sustenido menor) tem um A marcado ‘Andante con moto’, de carácter circular e ominoso, e um B (em ‘tempo’ mais rápido), de escrita sincopada, mais poético. O regresso de A é abreviado e liga a uma breve secção conclusiva, de ‘tempo’ mais lento.

Berg, Opus 1
Alban Berg (1885-1935) é a mais fascinante figura do modernismo musical vienense, pela forma como soube fundir linguagem de vanguarda, preservação de herança histórica e comunicação/impacto emocional. O seu catálogo de obras oficiais abre com a presente Sonata, cuja composição deverá datar de 1909.
Na tonalidade (indicativa) de si menor (o acorde respectivo surge no c. 3 e no final da obra, de resto apenas como ‘evento harmónico’), ela estrutura-se num único andamento, com várias alteraçoes de ‘tempo’ internas. A obra evidencia os reflexos dos estudos de Berg com Arnold Schönberg, nomeadamente ao nível da aplicação do princípio da ‘Grundgestalt’ (‘configuração de base’) e da chamada ‘variação desenvolvimental’, já que tudo nesta obra deriva do material apresentado logo nos primeiros compassos. A linguagem é atonal e a harmonia não-funcional. Formalmente, estamos diante de uma muito clássica
forma-sonata, com dois temas (o 2.º num ‘tempo’ mais lento que o 1.º). O Desenvolvimento combina livremente “células” derivadas dos 2 temas, após o que a Reexposição traz versões modificadas dos temas 1 e 2 (por vezes tomando um balanço valsante), junto com um motivo reminiscente de um Prelúdio de Chopin. No final, o gesto inicial (o tal ‘Grundgestalt’) regressa, trazendo com ele o si menor.
A Sonata op. 1 foi editada, a expensas do autor, por Robert Lienau (de Berlim), logo em 1910. A estreia ocorreu a 24 de Abril de 1911, em Viena, por Etta Werndorff.

Bernardo Mariano