26 JUN Sábado 18h30

Quintetos de Johannes Brahms

e Sérgio Azevedo

 

Telmo Costa Clarinete
Francisco Lima Santos Violino
Anna Paliwoda Violino
Samuel Barsegian Viola
Varoujan Bartikian Violoncelo

Solistas da Orquestra Gulbenkian

 
::Programa::
 
Johannes Brahms (1833-1897) Quinteto com Clarinete, Opus 115
     1. Allegro
     2. Adagio
     3. Andantino – Presto non assai, ma con sentimento
     4. Con moto – Un poco meno mosso
 
Sérgio Azevedo (1968- ) Quinteto com Clarinete
     1. Adagissimo
     2. Prestissimo con molta ferocità
     3. Apogeu
 

::Notas ao Programa::

Clarinete inspira obra inspiradora

O Quinteto com clarinete em si menor, op. 115, de Brahms, data do Verão de 1891 e é fruto da revelação que foi para Brahms conhecer a arte interpretativa de Richard Mühlfeld (1856-1907), clarinetista na Orquestra da Corte de Meiningen (norte da Baviera), formação que Brahms dirigia com alguma frequência. A instrumentação reproduz a da obra homónima de Mozart (Quinteto em lá maior, KV581).
Foi estreado privadamente em Meiningen, a 24 de Novembro de 1891 e publicamente em Berlim, no 12 de Dezembro seguinte. Menos de três meses depois, já havia partitura editada (por Simrock, de Berlim).
O Quinteto articula-se em 4 andamentos, com o 1.º organizado numa forma-sonata. O material temático principal contrasta pelo carácter: o 1.º e 2.º são mais resignados ou outonais e o 3.º é mais vigoroso e vincado. Mas o que nos fascina é o modo como Brahms molda tão bem a sua invenção melódica à natureza dos instrumentos e como explora a versatilidade do clarinete sem que este se imponha na textura. O 2.º andamento é um meditativo ‘Adagio’, no qual o timbre das cordas é matizado pelo emprego em contínuo da surdina, tendo ao centro uma secção mais enfática. Este é o único andamento onde o clarinete se sobrepõe ao quarteto de cordas. O ‘Andantino’ adopta o carácter a meias-tintas de ‘Intermezzo’ característico, p.ex., das suas sinfonias 1, 2 e 3 e tem, ao centro, uma secção de sabor cigano/húngaro. O ‘Con moto’ final é, tal como em Mozart, um Tema seguido de 5 variações, permitindo evidenciar as diferentes possibilidades de instrumentação deste ensemble e as qualidades de cada instrumento. A 5.ª variação, com inefável poesia, faz regressar o discurso ao início da obra, fechando o círculo. E é nesse ambiente que termina, numa atmosfera de resignada serenidade.
Destinado à mesma combinação instrumental, o ‘Quinteto com clarinete’ de Sérgio Azevedo (n. 1968) data de 2011. Como sucede noutras instâncias da obra deste autor, o presente Quinteto assume consciente e deliberadamente a componente de ‘hommage’ à obra precedente, sob a forma de reminiscências. A estreia da obra deu-se a 9 de Junho de 2017, em Matosinhos, pelo Quarteto de Matosinhos, mais António Saiote.
Organiza-se ele em 3 andamentos:

I. Adagissimo
II. Prestissimo con molta ferocità
III. Apogeu

Tomando como seu ‘modus operandi’ uma prática muito típica de Brahms, Azevedo lida aqui também com pequenos motivos ou “células” intervalares, vários deles, de resto, comuns com o Quinteto do seu antecessor. São eles que geram o discurso musical ao longo dos três andamentos, mas sem que alguma vez haja qualquer ‘pastiche’, contudo. A linguagem é moderna, e reconhece-se o autor, mas aqui e ali, pontuando o discurso, há certas inflexões que nos transportam imediatamente para o universo brahmsiano e especificamente para aquela poesia sonora tão característica do seu estilo tardio. Essas inflexões, porém, não são nunca bruscas, mas antes sempre muito bem introduzidas e resolvidas. Uma outra presença nesta obra é o canto de pássaros, quiçá evocando a Natureza envolvente da estância termal de Bad Ischl, junto ao lago Traun (não longe de Salzburgo), onde Brahms passou o Verão de 1891 e onde escreveu o Quinteto.
O 1.º andamento termina numa calma inquietação, que o início do 2.º and. prolonga até introduzir um ‘agitato’ com algo de campesino. Um aplanamento geral prepara o 3.º andamento, de linhas estáticas, com as cordas a suportar as sucessivas intervenções motívicas do clarinete. Um último “clarinete-pássaro” precede a secção final, com o clarinete, primeiro com o violino imitando-o, depois a solo, sobre um longo pedal no grave. Um último movimento ascendente das cordas leva a obra a termo, o som desfazendo-se no vazio.

Bernardo Mariano