19 JUN Domingo 19h00

CONVENTO dos CAPUCHOS

“Bonsoir Monsieur Proust”

Debussy, Fauré, Franck, Hahn
 
 
::Programa::
 

Claude Debussy (1862-1918)
     Andante espressivo, do Trio L5
     Beau Soir, L84
     La fille aux cheveux de lin, Prelúdio N. 8 L117
     Minstrels , Prelúdio N. 12 L117

Gabriel Fauré (1845-1924)
     Après un rêve, Op. 7 N. 1
     Sicilienne, Op. 78
     Elégie, Op, 24

César Franck (1822-1890) Sonata para Violino e Piano, CFF 123

     1. Allegretto ben moderato

     2. Allegro
     3. Recitativo – Fantasia. Ben moderato
     4. Allegretto poco mosso

Reynaldo Hahn (1874-1947) Trio “Romanesque”, IRH 81

::Notas ao Programa::
À volta de Proust, 1922-2022

Debussy, Fauré, Franck, Hahn. Ou, por ordem geracional: Franck, Fauré, Debussy, Hahn. O primeiro, belga de origem, o último venezuelano de nascimento. Paris une os quatro. Franck e Fauré tornaram-se figuras patriciais, ‘auctoritas’ da cena musical francesa, no caso de Fauré mesmo que ‘malgré lui’. Já Debussy nunca quis nada com nenhuma autoridade e até mesmo aquela que lhe poderia ser conferida pela sua música foi ‘torpedeada’ pela mudança de gosto operada na música francesa com a eclosão da I Guerra Mundial (sendo que o compositor morreria cerca de 7 meses antes do Armistício). Por fim, Hahn: filho de um judeu alemão emigrado na Venezuela, chega com a família a Paris ainda em criança, recebe uma educação musical de excepção, tais eram os seus dotes, e revela-se ainda adolescente nos salões parisienses enquanto compositor de canções – as ‘mélodies’ -, sendo que ele próprio as cantava, acompanhando-se ao piano. Por essa altura, c. 1890, a ‘mélodie’ francesa estava no seu auge, tendo recebido os influxos de Gounod, Fauré, Massenet, Duparc e já também de Debussy – e Hahn juntou o seu nome a essa ilustre galeria.
Se os salões são o lado intimista da esfera pública, os teatros de toda a sorte são o seu lado mais exterior; e num como noutro mundo Hahn movia-se com imenso à vontade, daí que a sua produção mais celebrada, a par das ‘mélodies’, seja aquela destinada aos teatros: músicas de cena, óperas, operetas, vaudevilles.
Hoje, Hahn é também amiúde referenciado por via da sua associação com Marcel Proust: uma amizade de toda a vida, sincera e chegada – que na sua fase inicial foi também uma relação amorosa –, que a ambos enriqueceu como pessoas e como artistas.
O 2.º Império (de Napoleão III) marca a emergência de uma idade de ouro da música francesa, que será marcada por dois factores externos: a derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana de 1870-71 e a “sombra” dos dramas musicais de Richard Wagner. Eles irão espoletar a definição, em reacção, de uma ‘maneira’ musical eminentemente francesa, numa época, como o era/foi a 2.ª metade do século XIX, completamente dominada pela música e pela tradição musical germânica. E essa ‘maneira’ revelar-se-á antes de mais nos pequenos géneros: a música para piano (privilegiando formas mais pequenas), a canção de câmara e a música de câmara (aqui com mais prevalência de géneros consagrados).
E, do outro lado, os géneros teatrais: a descendência do ‘grand opéra’ e das várias tradições que intercalam canto e recitação, indo até à pura música de cena. Claro que também houve muita produção orquestral, mas, até ao advento de Debussy e de Ravel, são pouco numerosas as obras que se vieram a impor no repertório respectivo.
No programa de hoje, fazemos um breve percurso panorâmico sobre esse culto francês das formas mais intimistas da música, tendo por “acompanhante” Marcel Proust, toda a vida um grande melómano – sendo inclusive um opinador avalizado – e que incontáveis serões musicais (preenchidos com estes mesmos géneros!) viveu nos salões que amava frequentar e que foram matéria-prima primicial (passe a redundância) para o seu ‘magnum opus’ literário.
‘Opus’ esse que consagrou para a posteridade a ‘sonata de Vinteuil’ e a ‘petite phrase’, gerando desde aí incontáveis suposições sobre qual seria a concreta obra musical em que Proust se inspirara. E a candidata mais clássica é porventura a Sonata em lá M de Franck, para mais uma obra-prima da música de câmara oitocentista.
Oriunda dessa faceta mais pública de Reynaldo Hahn a que acima aludíamos é a ‘Romanesque’, escrita para uma peça de teatro sobre a duquesa Beatrice d’Este (séc. XV), estreada a 28 de Março de 1905. ‘Romanesque’ não designa nenhuma dança do tempo, mas remete para o imaginário medieval-gótico e de amor cortês que o ambiente da peça pretenderia recriar.
Autor de um famoso ‘Requiem’, foi antes de mais pelas suas ‘mélodies’ e música de câmara que Gabriel Fauré ficou consagrado. Dele escutamos a ‘Sicilienne’, original para violoncelo e piano (tal como aliás a ‘Elégie’), que casa o embalo ternário do ritmo ‘siciliano’ com um modalismo muito francês. A ‘Elégie’ (‘Molto adagio’), na forma ABA’, começa lamentosa (A), torna-se combativa até à veemência (B) e alcança uma pacificação (regresso modificado e abreviado de A).
‘Après un rêve’ é uma das mais famosas ‘mélodies’ de Fauré, editada em 1878. O lirismo sonhador da linha vocal, desenhada como um grande arco, adapta-se muito bem às sonoridades mais quentes da viola ou do violoncelo.
Por fim, Debussy. Os seus dois livros de ‘Préludes’, para piano solo, datados de 1909-10 (I) e 1912-13 (II) ficaram para a história da literatura pianística do século XX, pela forma como cristalizam vários traços da sua linguagem e ao mesmo tempo apontam novas possibilidades de exploração do piano. Cerca de 30 anos anterior é a ‘mélodie’ ‘Beau Soir’, sobre poema de Paul Bourget. Uma evocação do anoitecer dá lugar a uma afirmação do ‘carpe diem’, para no final se fazer sombrio, ante a inevitável morte. Ouvimos, por fim, o 3.º andamento do juvenil Trio em sol M, escrito no Outono de 1880, em Florença, quando Debussy (tinha então 18 anos) estava ao serviço da famosa patrona de Tchaikovsky, Nadezhda von Meck.

Bernardo Mariano