02 JUL Sábado 18h00

CONVENTO dos CAPUCHOS

Canções de Lopes-Graça

Raízes 1
 
 
::Programa::
 

Fernando Lopes-Graça (1906-1994)

Parte I – Grandes Poetas

– O Sol é grande / Sá de Miranda
– Oh como se me alonga / Camões
– Sete anos de pastor / Camões
– Alma minha gentil que te partiste / Camões
– Porque vossa beleza a si se vença / Camões
– Mar de Setembro / Eugénio de Andrade

Parte II – Canções Populares

Das Canções Populares Gregas
– L’agnelet
– Pentozali

Das Canções Checas e Eslovacas
– Les fillettes
– Un fusilier de la garde
– L’oiseau Planait
– Hop, hei

Canções Populares Portuguesas
– Ó, ó, menino, ó
– Ó minha amora madura
– Canto da carregação
– Ó Senhora Mãe dos Homens


::Notas ao Programa::

O erudito e o popular na canção de câmara de Lopes-Graça

A atenção que toda a vida Fernando Lopes-Graça deu aos poetas transparece da presença da canção de câmara pontuando toda a sua longa vida criativa, o que o torna, ao lado de Luís de Freitas Branco, no mais importante cultor do género entre os nossos compositores do século XX. A produção de Lopes Graça neste domínio percorre quase panoramicamente a poesia portuguesa, desde os trovadores até aos novíssimos poetas do seu tempo, formando um conjunto muito importante na sua obra, superado só pela música para piano solo e pela música coral.
Para além de uma formação literária muito ampla e do gosto pela poesia, Lopes Graça conviveu com muitos poetas, que foi conhecendo pelos círculos por onde se movimentava – e não se esqueça que fez o curso complementar de letras no Liceu Passos Manuel (1924) e frequentou Histórico-Filosóficas na Fac. Letras (1928-31).
Lopes-Graça musicou um total de 20 sonetos de Camões entre 1939 e 1984. ‘Sete anos’, ‘Alma minha’ e ‘Oh, como se me alonga’ constituem os ‘3 Sonetos de Camões, op. 27’. Foram escritos em Paris, em 1939, e estrearam já em Lisboa, a 25 de Novembro de 1944, por Olga Violante (dedicatária), com Jorge Croner de Vasconcelos ao piano.
‘O sol é grande’, sobre soneto de Sá de Miranda, é uma canção de 1960, que, embora gravada e editada em disco (2006), só teve a sua primeira execução pública no passado dia 24 de Abril, em Leiria, por Nuno Vieira de Almeida e Cátia Moreso. Ou seja: 62 anos depois! Do mesmo ano é ‘Porque vossa beleza a si se vença’, de novo sobre soneto de Camões. A estreia, neste caso, deu-se por ocasião do 10 de Junho de 1963, nos estúdios da RTP, por Fernando Serafim, com o compositor ao piano.
De Eugénio, ouvimos as 6 canções da versão original do ciclo ‘Mar de Setembro’1. Este ciclo tem a particularidade de ter sido escrito no próprio ano da edição de ‘Mar de Setembro’ (1961)2, tendo Graça musicado então 6 dos 28 poemas da colectânea3. Era, essa, a sua segunda visitação da poesia de Eugénio, dois anos após as 11 canções sobre ‘As mãos e os frutos’. A obra traz o subtítulo ‘Homenagem a Debussy’, decerto suscitada pela ocorrência do centenário do seu nascimento, em 1962 e, na verdade, ela revisita vários ‘topoi’ da música impressionista/simbolista, ao mesmo tempo que é permeada pelas sugestões induzidas nele pela poesia luminosa de Eugénio.
A estreia do ciclo (versão original) deu-se nos estúdios da Emissora Nacional, a 3 de Fevereiro de 1963, de novo por Fernando Serafim, com o autor ao piano.
A outra faceta muito famosa de Graça é a sua dedicação à canção tradicional popular portuguesa (canção de folclore, canção rústica). Aqui, ele aproveitou as recolhas reunidas em antologias de quem já então fizera trabalho de campo (António Joyce, Rodney Gallop, Kurt Schindler, Margot Dias, Serrano Baptista, António Marvão, entre outros). Ficaria sobretudo famosa a sua associação com o etnólogo corso Michel Giacometti (1929-90), a partir de 1960, e ao trabalho de recolha por este empreendido desde essa data em vários pontos do interior de Portugal.
A absorção dos idiomas populares assim operada permeia a quase totalidade da sua produção musical, seja sob a forma de citações textuais, seja sob aquela do chamado ‘folclore imaginário’, de tal modo se transmutou em matriz e identidade da sua própria linguagem musical.
No espaço de 20 anos (1939-59), Lopes-Graça editou 4 Séries (ou cadernos) de ‘Canções populares portuguesas’, para canto e piano, cada uma delas com 24 canções. As quatro que hoje ouvimos provêm das Séries II (1942-46) e III (1947-49). ‘Ó minha amora madura’ e ‘Ó Senhora mãe dos homens’ provêm da Série II (resp., nos. 6 e 24) e ‘Canto da carregação’ e ‘Ó, ó, Menino, ó’ provêm da Série III (resp., nos. 12 e 13). Estas colecções de canções foram dadas pela primeira vez integralmente na Sociedade Nacional de Belas-Artes (Lisboa), por Arminda Correia, com o compositor ao piano, em Janeiro de 1947 (II) e Janeiro de 1950 (III).
Por outro lado, o humanismo universalista que professava, também apoiado pelos seus ideias comunistas-internacionalistas de afirmação dos povos e da sua identidade, fez com que se interessasse pelas tradições populares de outras culturas, de que neste recital se dão dois exemplos.
De 1950 e 1951 são, respectivamente as ‘Sept vieilles chansons grecques’ e as ‘Dez canções checas e eslovacas’, que usam traduções francesas dos textos populares originais. Estas colecções foram ambas estreadas em Lisboa, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, respectivamente em Março de 1951 e em Janeiro de 1952, em ambas as ocasiões por Maria Alice Vieira de Almeida (dedicatária das canções gregas), com o compositor ao piano. ‘L’agnelet (chant du berger)’ é a canção que abre a colecção grega, sendo ‘Pentozali’ a n.º 3; já nas checas e eslovacas, ouvimos respectivamente os nos. 9, 7, 4 e 10.

Notas:
1 – Em 1975, Lopes-Graça acrescentaria a essas 6 mais três canções, numeradas 4, 5 e 6 no novo formato de 9 canções.
2 – 1961 foi também o ano da publicação da 1.ª antologia poética de Eugénio, com uma súmula dos seus poemas desde 1945.
3 – O processo de composição terminou já em 1962.
Bernardo Mariano