08 JUL 6ª feira 21h30

CONVENTO dos CAPUCHOS

“Carta Branca a António Wagner Diniz”

Artur Santos, Lopes-Graça, Fauré, Debussy, Satie, Poulenc
 
Laura Martins Soprano
Rita Filipe Mezzo Soprano
Diogo Chaves Barítono
Frederico Pais Barítono
Francisco Ribeiro Barítono Baixo
Pedro Vieira de Almeida Piano
Filipa Soares Piano
António Wagner Diniz Narração
 
::Programa::
 

TERRA – Ser

Artur Santos (1914-1987) Manjerico
        Senhora do Almurtão
        Eu Ouvi Mil Vezes Ouvi
        Oh Que calma Vai Caindo
        Senhora Santa Luzia

Fernando Lopes-Graça (1906-1994) Quem Embarca , Quem Embarca
        O Meu Amado Menino
        Ó Triste Sombra Acompanha-me
        O Menino de Sua Mãe

AR – Estar

Eric Satie (1866-1925) Air du Poète
        Spleen
        Statue de Bronze

Francis Poulenc (1899-1963) Bestiaire: La Chèvre, L’Ecreveuille, Carpes
        Hôtel

Eric Satie (1866-1925) Daphénéo

MAR – Partir

Gabriel Fauré (1845-1924) Les Berceaux

Claude Debussy (1862-1918) Forêts

Gabriel Fauré (1845-1924) Jardin Nocturne

Claude Debussy (1862-1918) C’est l’extase langoureuse

Gabriel Fauré (1845-1924) L’horizon chimérique: La mer est Infinie, Diana Séléné

Claude Debussy (1862-1918) Beau Soir

Gabriel Fauré (1845-1924) Forêt de Septembre
        Pleurs d’or
        Les Berceaux

::Notas ao Programa::

Este concerto pretende cumprir dois rituais, o de passagem de testemunho e o de
despedida. Embora tenha consciência de um total pretensiosismo da minha parte em me considerar apto a realizar individualmente este rito de passagem já que,
infelizmente, o outro fundador do velho festival já não se encontra entre nós, gostava, no entanto, de desejar a maior felicidade e perseverança ao Filipe Pinto-Ribeiro na condução desta nova etapa do Festival dos Capuchos.

O José Adelino Tacanho e eu costumávamos ensaiar o nosso duo de canto e guitarra nas instalações do Convento dos Capuchos, ora na capela ora no salão que tinha sido utilizado muitas vezes para a realização de festas e saraus da Mocidade Portuguesa, daí possuir um piano. Conversa puxa conversa e começámos a considerar a hipótese de propormos a realização de alguns concertos nesse espaço icónico da chamada “outra banda”, até que decidimos tomar o “arrojado” passo de começar a planear um Festival, até porque nos anos 80 do século XX, na região de Lisboa só existiam os já consagrados Festivais de Sintra e do Estoril e creio que a nível nacional só existia mais o da Póvoa do Varzim. Na altura, eu já estava muito ligado ao meio artístico musical o que permitia angariar pessoas para esta aventura. Mas mais um Festival como os outros achávamos que não era razão suficiente para todo o trabalho que iríamos ter.
Assim resolvemos pensar “fora da caixa ” e planear uma série de concertos em que a originalidade fosse o tom mestre. Surgiram, entre outros, na primeira edição do
Festival, a música aquática de Haendel feita numa viagem de cacilheiro de Lisboa a Cascais, a audição dos quintetos para cordas e guitarra de Boccherini, um serão de modinhas tocadas com instrumentos originais com o Rui Nery à espineta, o José Adelino na guitarra romântica e a Helena Afonso e eu como cantores, e acolhemos um espectáculo concebido pelo João Paulo Santos sobre Stravinsky (ou Satie, não me recordo) numa “onda” Constança Capdeviliana. Pois é este espírito que gostaria de fazer a passagem de testemunho ao actual responsável. Não poderia abdicar de deixar aqui registada a minha homenagem ao José Adelino por ter prosseguido e aguentado o Festival por tantos anos, sempre com tanta originalidade e qualidade.
Ritual do Adeus porque reformando-me no final deste ano lectivo e tendo tido a sorte de ter um escol de bons alunos, achei por bem, e para pôr fim a essa parte da minha vida que foi de conceber e produzir espectáculos, fazer um evento em que se pudesse ilustrar a passagem pelas diversas fases da vida. Como perguntou Esfinge a Édipo: primeiro com quatro pernas, depois com duas e finalmente com três. Assim teremos três grupos de música. O primeiro, Terra-Ser, pretende dar uma visão da época em que nasci e cresci conjugando as harmonizações de canções portuguesas realizada por Artur Santos, num idioma mais tradicional e algumas das Trovas de Lopes-Graça, enquadrando-as politicamente. Assim acompanharei as harmonizações tradicionais “com textos tirados do Livro da 3º classe da era Salazarista (foi o livro por onde estudei), verdadeira arte de propaganda do regime, e as Trovas com textos do período agitado dos primeiros anos do 25 de Abril onde se apresenta a quantidade de grupos e partidos políticos que se formaram e as refregas entre eles. O segundo grupo, Ar – Estar — Ilustra o desenvolvimento eclético como músico, escolher de uma série de canções de Satie e Poulenc entremeados por textos de Eric Satie, apresentadas num tom de Cabaret, nítida homenagem a Constança Capdeville a quem muito devo. Finalmente a terceira parte, Mar – Partir — ilustra o salto para o desconhecido, banhando a nostalgia das melodias de Fauré e Debussy com excertos de um dos meus livros preferidos — as cidades invisíveis de Italo Calvino. Que eu e os meus queridos espectadores encontremos a nossa cidade invisível, é esse o meu desejo.

António Wagner Diniz