26 JUN Domingo 19h00

CONVENTO dos CAPUCHOS

Concerto Schubertíada

Música de Câmara
 
 

::Programa::

Franz Schubert (1797-1828) Trio com Piano D897, “Notturno”

Sonata D821, “Arpeggione”, para Viola e Piano
     1. Allegro moderato
     2. Adagio
     3. Allegretto

Quinteto com Piano D667, “A Truta”
     1. Allegro vivace
     2. Andante
     3. Scherzo
     4. Andantino
     5. Allegro giusto

::Notas ao Programa::

O Quinteto ‘a Truta’ é o resultado do feliz Verão de 1819, que Schubert passou com o seu amigo, o reputado barítono Johann Michael Vogl, na terra natal deste: Steyr (a sul de Linz). Ali Schubert conheceu Sylvester Paumgartner, mecenas musical e violoncelista amador, de quem terá partido a sugestão de uma obra com esta instrumentação (piano+trio de cordas+contrabaixo) e incorporando o já então popular ‘Lied’ de Schubert intitulado ‘A truta’ (D550), que deveria ser tratado na forma-variação. Schubert assim fez, do que resultou esta obra luminosa e prazenteira, que lembra um pouco os ‘Divertimenti’ clássicos, mas cujos temas e processos de tratamento do material musical são totalmente schubertianos (só no ‘Scherzo’ se pressente alguma influência de Beethoven). Quanto à tal canção ‘A truta’, ela surge no 4.º andamento (há cinco andamentos, no total), enunciada pelas cordas em ‘pp’, sendo depois elaborada em seis variações, sendo que cada instrumento tem o “direito” de enunciar a melodia do ‘Lied’ numa variação diferente.

O Adagio em mib M, D897, chamado de ‘Notturno’, crê-se ter sido pensado originalmente para andamento lento de um dos dois grandes Trios com piano do autor (D898 e D929). Estruturado numa forma ABABA, ele inicia com o piano criando um “chão” sonoro, sobre o qual violino e violoncelo, em homofonia, desenvolvem um amplo canto nocturnal. Trocando depois papéis, é o piano que dá o tema, sobre ‘pizzicati’ das cordas. Há algo de beethoveniano na parte B, com a sua agitação e veemência, depois expandidas até atingirem carácter hínico e grandioso. O regresso de A faz-se na mesma ordem do início. Regressa de seguida o B, abreviado, tal como o A final, ambos sobre renovadas figurações de acompanhamento. A Coda faz-se sobre A, numa gradual suavidade e quietude.

A Sonata em lá menor, D821, foi a contribuição solitária de Schubert para um instrumento de corda chamado ‘arpeggione’, uma efémera criação de um reputado ‘luthier’ vienense chamado Johann Georg Stauffer, surgida em 1823. Um guitarrista chamado Vincenz Schuster, amigo de Schubert, interessou-se muito pela novidade e pediu ao compositor que escrevesse uma sonata para o nóvel instrumento, o que Schubert fez logo em 1824. Os dois estrearam-na, é certo, mas o ‘arpeggione’ não vingou e quando a Sonata foi editada (o que se deu somente em 1871), o instrumento há muito havia desaparecido. Razão por que foi depressa adoptado pelos violoncelistas, tornando-se essa a versão mais corrente desta obra, apesar de haver transcrições igualmente para viola de arco (e assim será hoje executada), contrabaixo e até guitarra, flauta e clarinete.
O ‘arpeggione’, que era dotado de trastos, era também chamado de “chitarra d’amore”, guitarra de arco e guitarra-violoncelo, o que diz muito acerca da sua construção (um híbrido de guitarra, de violino pré-barroco e de viola da gamba) e da sonoridade que produzia. Pode dizer-se que foi uma última tentativa de prolongar a vida da viola da gamba, instrumento que teve nos países germânicos os seus derradeiros cultores e a sua mais duradoura popularidade (praticamente até à virada para o séc. XIX). Esta Sonata é pois uma obra de amizade e de circunstância, mas onde ainda assim Schubert colocou a sua marca melódica muito distintiva.
O ‘Allegro moderato’ inicial é uma forma-sonata com dois temas – o 1.º de tom algo resignado (apresentado primeiramente no piano), o 2.º mais vivo –, sendo que cada um deles tem parcelas terminais que serão empregues com função motívica no posterior desenrolar do andamento. O ‘Adagio’ é uma forma binária AB (sem repetições), em ambas o instrumento de corda assumindo funções de condução melódica, sendo que na parte B o piano acompanha com contidas “baterias” de acordes. A resolução faz uma transição directa para o ‘Allegretto’ conclusivo, que é o andamento mais desenvolvido. O refrão tem afinidades com o ‘La ci darem la mano’ do ‘Don Giovanni’ mozartiano e, na parte final, anuncia o tema do Rondó da futura Sonata para piano em lá M, de 1828. Os dois episódios remetem ambos para a melodia popular (o ‘Volkslied’ ou o ‘Gassenhauer’), com o segundo denotando certa semelhança com o 2.º tema do 1.º andamento. Uma “espécie de” Desenvolvimento (cruzando esta forma de refrão com a forma-sonata) precede a última aparição do refrão, rematando a obra uma Coda muito sumária.

Bernardo Mariano