11 JUN 6ªfeira 21h00

Concerto de Abertura 

Vozes Divinas: Bach
e Polifonia Renascentista
Portuguesa
 
Adrian Brendel Violoncelo
 
Pedro Teixeira Direcção
 
::Programa::
 
Manuel Cardoso (1566-1650) Magnificat secundi toni 1. Magnificat anima mea Dominum 
Estêvão Lopes-Morago (1575-1630) Lætentur cæli
Johann Sebastian Bach (1685-1750) Invenções a Duas Vozes BWV 772-786, N.º 1, 2, 3
             
Manuel Cardoso (1566-1650) Magnificat secundi toni 2. Quia respexit
Duarte Lobo (1563/4-1646) Audivi vocem  
Johann Sebastian Bach (1685-1750) Invenções a Duas Vozes BWV 772-786, N.º 4, 5, 6
 
Manuel Cardoso (1566-1650) Magnificat secundi toni 3. Et misericordia eius
Diogo Dias Melgás (1638-1700) In jejunio  
Johann Sebastian Bach (1685-1750) Invenções a Duas Vozes, BWV 772-786, N.º 7, 8, 9
 
Manuel Cardoso (1566-1650) Magnificat secundi toni 4. Deposuit potentes
Manuel Cardoso (1566-1650) Sitivit anima mea 
Johann Sebastian Bach (1685-1750) Invenções a Duas Vozes BWV 772-786, N.º 10, 11, 12
 
Manuel Cardoso (1566-1650) Magnificat secundi toni 5. Suscepit Israel
Manuel Cardoso (1566-1650) Nos autem gloriari 
Johann Sebastian Bach (1685-1750) Invenções a Duas Vozes BWV 772-786, N.º 13, 14, 15
 
Manuel Cardoso (1566-1650) Magnificat secundi toni 6. Gloria Patri
Estêvão de Brito (1570-1641) O Rex Gloriæ
 
 
::Notas ao Programa::
 
A inesgotável inventiva do contraponto
O Concerto de Abertura deste Festival dialoga temporal e tematicamente com o espaço que lhe serve de “sala”, “palco” e enquadramento: o Convento dos Capuchos.
Construído c. 1558, este convento da Província franciscana da Arrábida encontra-
-se geograficamente na exacta mediana entre o convento-sede da então Província franciscana da Arrábida (de c. 1540), sito na vertente sul da serra desse nome, e o convento capucho da serra de Sintra (de c. 1560). Os inícios da vida monástica nestas paragens são, portanto, contemporâneos da chamada “idade de ouro” da polifonia vocal portuguesa, de que hoje ouviremos vários exemplos, da autoria de alguns dos seus maiores mestres. Por seu turno, as peças de Bach que ouviremos são contemporâneas da construção do Convento de Mafra, por D. João V destinado aos frades arrábidos.
A um nível mais musical, as peças vocais e as de violino e violoncelo dialogam entre si pelo facto de em ambas serem o contraponto e a imitação a base do discurso. Estas técnicas, que nasceram e floresceram primeiro na música vocal, passaram depois à literatura instrumental e pode dizer-se que atingiram com Johann Sebastian Bach o seu apogeu.
De Manuel Cardoso (1566-1650), frade carmelita que viveu a maior parte da vida no Convento do Carmo, em Lisboa, ouvimos, pontuando todo o transcorrer do concerto, o ‘Magnificat do 2.º tom’ (modo de ré), a 5 vozes (SSATB), cântico normalmente usado no ofício de Vésperas. O texto é o do muito antigo ‘Cântico de Maria’, proveniente do Evangelho de Lucas. A prática, aqui, consistia em dividir o texto em pares de versos, tratando-se um deles polifonicamente e fazendo o outro em cantochão, sendo que se podia começar por um ou por outro. No caso deste, foram os versos pares a receber tratamento polifónico: ouvimos assim 5 pares de versos, rematados pela Doxologia (fórmula conclusiva), esta a 6 vozes (SSAATB), com idêntico tratamento: 1.º verso em cantochão, 2.º polifónico. Esta obra integra o ‘Livro de Magnificats’ de Manuel Cardoso, editado em 1613.
Do mesmo autor, ‘Sitivit anima mea’, a 6 vozes (SSATTB), é um motete fúnebre proveniente do ‘1.º Livro de Missas’, editado em 1625. O texto provém dos salmos e fala da alma que anseia fazer-se pomba (imagem descrita musicalmente) para reencontrar Deus. ‘Nos autem gloriari’ provém do ‘Livro de vários motetes’, de 1648 (último que fez publicar) e apresenta uma textura a 5 vozes (SAATB); exorta-nos a rejubilar no Cristo pregado na Cruz, pois ali está a salvação, a vida e a ressurreição.
De Duarte Lobo (1563/4-1646), e também destinado à liturgia de defuntos, escutamos ‘Audivi vocem’, a 6 vozes (SSAATB), motete que fecha o seu ‘Livro de Missas’ de 1621 e onde se canta a “voz do céu”, que disse: “Benditos os que morrem no Senhor”.
‘O Rex Gloriae’, de Estêvão de Brito (c.1570-1641), é um motete a 8 vozes (duplo SATB) destinado à festa da Ascensão de Cristo (40 dias após a Páscoa), cujo manuscrito provém da catedral de Málaga, de que o português foi mestre de capela.
De Estêvão Lopes Morago (c.1575-dp.1630), escutamos um motete para o tempo do Advento, a 5 vozes (SSATB). O texto exorta os homens a prepararem-se e alegrarem-se, pois a vinda do Messias (festa do Natal) está já próxima. Este motete integra o ‘Livro da Coresma’, manuscrito datado de 1628 e guardado no Arquivo Distrital de Viseu (vindo do Arquivo da Sé, de que Lopes Morago foi mestre de capela).
O autor mais tardio aqui representado é Diogo Dias Melgás (que morre já em 1700), que foi mestre de capela da Sé de Évora. Dele ouvimos ‘In jejunio et fletu’ (a 4 vozes), canto penitencial para a 4.ª feira após o V Domingo da Quaresma. O texto mostra-nos a comunidade dos sacerdotes intercedendo ao Alto pelo povo de Deus.
A imensa obra para tecla de Bach comporta uma importante e abrangente parcela pedagógica. Aí se inserem as 15 Invenções (a 2 vozes) e as 15 Sinfonias (a 3 vozes), peças nas quais, à propriedade pedagógica, se alia a perfeição e qualidade de acabamento na escrita musical, constituindo-se como um pequeno curso de escrita contrapontística. O manuscrito, de 1723, antecede em pouco a mudança de J.S. Bach de Cöthen para Leipzig. As peças terão sido destinadas, seja aos seus filhos – ao mais velho, Wilhelm Friedemann, desde logo – seja aos seus alunos. Têm origem no ‘Clavierbüchlein para Wilhelm Friedemann’ (1720), recebendo aí as designações de ‘Praeambulum’ e ‘Fantasia’, respectivamente.
O instrumento destinatário seria o clavicórdio, instrumento de tecla doméstico ‘par excellence’ na Alemanha coeva e que primava pela capacidade de matizar e gradar subtilmente o som. Preocupações de Bach foram, aqui, a execução ‘cantabile’, o “jogo” polifónico de condução equilibrada das vozes (em escrita imitativa ou fugada) e a diferenciação (por meio da articulação, fraseio ou dinâmica) dos temas, fragmentos de temas e contratemas, onde quer que surjam. Finalmente, educar o gosto na ornamentação. Intenção última, enfim: a de ensinar a ‘cantar’ com o instrumento.
 
Bernardo Mariano