12 JUN Sábado 21h00

Homenagem a Alfred Brendel I

Schubertíada I
 
Adrian Brendel Violoncelo
 
 
::Programa::
 
Franz Schubert (1797-1828) Sonata D 574, “Gran Duo”, para Violino e Piano
1. Allegro moderato
2. Scherzo. Presto
3. Andantino
4. Allegro vivace
 
Franz Schubert (1797-1828) Trio N.º 1, D898, para Piano, Violino e Violoncelo
1. Allegro moderato
2. Andante un poco mosso
3. Scherzo. Allegro – Trio
4. Rondo. Allegro vivace
 
 
::Notas ao Programa::
 

Estes dois concertos remetem, já pelo título, já pelo autor de todas as obras neles executadas, para a figura humana e de criador musical de Franz Schubert (1797-1828).
‘Schubertíadas’ era o nome dado já na altura às reuniões domésticas que tinham no centro a figura e a música de Schubert. Era, em suma, um círculo de amigos do compositor, de proveniência e estatuto social vário, incluindo músicos, homens envolvidos profissional ou diletantemente com as letras, ou simples amantes da arte e admiradores do jovem compositor. E foi entre os próprios que se cunhou esses serões de ‘Schubertíadas’. Ali se comia, bebia, se fazia música, recitava poesia, declamava-se, faziam leituras de autores consagrados ou das últimas novidades literárias. E no contexto destas reuniões, Schubert apresentou muitas suas obras em primeira audição, sobretudo composições para piano solo e ‘Lieder’ (canções para voz solo com acompanhamento de piano, sobre poesia em alemão), estes últimos com frequência escritos sobre poemas de amigos seus e participantes dessas reuniões.
É, pois, no espírito das Schubertíadas, e recuando à Viena de há dois séculos, que se desenrola este par de noites consecutivas do Festival dos Capuchos, tendo agora por personalidade agregadora Alfred Brendel, sem dúvida um dos maiores conhecedores mundiais da figura humana e de criador musical de Franz Schubert.
Sonata para Violino e Piano “Gran Duo”
Datada de Agosto de 1817, esta obra apresenta-nos uma face já bastante pessoal de Schubert – nota-se algum Beethoven (a publicação da última Sonata deste para a mesma combinação instrumental, a op. 96, dera-se em Julho de 1816), mas há muita coisa que acusa distintamente Schubert, nomeadamente a nível harmónico. Isenta de dramatismos, os seus quatro andamentos alternam a energia, o lirismo tranquilo e a boa disposição.
O 1.º andamento é uma forma-sonata com dois temas e duas ideias secundárias. O Scherzo (2.º and.) é cheio de nervo rítmico e com escrita complementar nos dois instrumentos. Interrompe-o o Trio, onde surge um tema de languidez muito vienense. O ‘Andantino’ começa com um tema ‘cantabile’ no violino, que depois irá sendo variado, ora num, ora noutro instrumento. O ‘Finale’ abre com duas ideias vindas do 2.º and. (os gestos iniciais de Scherzo e do Trio). Vêm depois um 2.º e um 3.º temas, mais descontraídos e joviais. Essa forma-sonata irá concluir com uma Coda que recupera o gesto inicial do andamento.
Os dois Trios com piano, em si bemol maior (D898) e em mi bemol maior (D929) são obras-primas indiscutíveis. Eles datam dos meses finais de 1827 e da Primavera de 1828. Como seria de esperar, eles complementam-se: mais lírico e “mozartiano”, o primeiro; mais ambicioso e “beethoveniano” o segundo.

Trio N.º 1
Ele abre com um ‘Allegro moderato’, uma forma-sonata com 2 temas, do qual ressalta desde logo a concepção sinfónica ao nível da escrita e da organização formal.
O ‘Andante un poco mosso’ é um ABA, com A a apresentar uma longa e embalante cantilena no violoncelo (passa depois ao violino e, finalmente, ao piano, de cada vez com modificações); e B introduzindo alguma inquietação, mormente na escrita do piano, a qual conjura ambientes evocadores de certas peças suas para piano, contemporâneas destas obras. O ‘Scherzo’ parece paradoxalmente convocar os antigos minuetes (danças de origem cortesã) do tempo de Mozart, com o tema principal aparecendo sucessivamente no piano, violino e violoncelo, sempre com uma graciosidade que só no final se transmuta na ‘persona’ enérgica própria da designação ‘Scherzo’. O Trio central é suave e liso, com as cordas em valores longos, sobre simples pontuações do piano.
O ‘Allegro vivace’ conclusivo, que tem traços de Rondó (forma-refrão) e de forma-sonata, alia a graça mozartiana a um ritmo muito característico de Schubert (o dactílico) e ao ‘perfume’ da música húngara/cigana, retomando ainda a respiração orquestral do andamento de abertura.

Sonata ‘Arpeggione’
O instrumento ‘arpeggione’ foi uma efémera criação de um reputado ‘luthier’ vienense chamado Stauffer. Era também chamado de “chitarra d’amore”, guitarra de arco e guitarra-violoncelo, o que diz muito acerca da sua construção e do seu som. De certa forma, foi uma última tentativa de prolongar a tradição das violas da gamba, instrumentos que tiveram nos países germânicos a presença mais duradoura.
Vincenz Schuster, guitarrista amigo de Schubert, interessou-se pela novidade e pediu ao compositor que escrevesse uma sonata para esse instrumento. Os dois tocaram-na, é certo, mas o arpeggione teria vida curta e, quando a Sonata foi editada (1871), o instrumento já há muito que desaparecera. Em função das semelhanças, a peça depressa foi adoptada pelos violoncelistas, tornando­- -se essa a versão mais usual em que é ouvida.
O ‘Allegro moderato’ é uma forma-sonata com 2 temas: o 1.º algo resignado (exposto pelo piano, primeiramente), o 2.º mais vivo. O ‘Adagio’ é uma forma AB, com o instrumento de corda a assumir em ambas a condução melódica, sendo que na parte B o piano o acompanha com discretas “baterias” de acordes. A resolução transita directamente para o ‘Allegretto’ conclusivo, que é o andamento mais elaborado. O tema principal apresenta afinidades com o famoso ‘La ci darem la mano’, cantado por Don Giiovanni na ópera homónima de Mozart. Os dois episódios são ambos evocativos das melodias populares do tempo, sendo que o 2.º lembra o tema 2 do 1.º andamento.

Trio N.º 2
O Trio em mi bemol maior é um pouco mais ambicioso em termos de extensão que o seu irmão. Ele apresenta, além disso, uma estrutura admiravelmente compacta, com múltiplas derivações e reaparições temáticas dentro de um mesmo andamento e entre andamentos.
O ‘Allegro’ inicial apresenta 3 temas: o 1.º faz pensar no início do Trio ‘Arquiduque’ de Beethoven; o 2.º lembra o ‘Menuetto’ da sua Sonata para piano em sol maior, e o 3.º será a base para a secção central (o Desenvolvimento). A secção conclusiva desse andamento, bastante extensa, “joga” com os temas 1 e 2, vindo as notas repetidas deste último a concluir. Surge então o famoso ‘Andante con moto’ (em dó menor). O tema principal, sobre um ritmo ‘ostinato’ algo fúnebre, aparenta-se a um dos seus muitos ‘Lieder’, sendo apresentado primeiro no violoncelo e depois no piano. Antes da última parcela desse tema, surgem dois intervalos de 8.ª perfeita descendente, que irão pontuar e fertilizar todo o andamento. Os episódios subsequentes fazem-se, seja sobre essas oitavas descendentes, seja sobre a componente mais melódica do tema inicial. No final, a parte inicial do tema retorna, com um carácter agora mais fúnebre, no piano e depois nas cordas, e serão ainda as tais oitavas descendentes (nas cordas, em pianissimo) a concluir o andamento. No ‘Scherzo’ principia a recorrência de temas e motivos de andamentos anteriores, procedimento que será prolongado e expandido no Finale. Esse ‘Scherzo’ alterna dois temas: um tratado em cânon e o 2.º com “balanço” de dança campesina. O Trio é curiosamente a secção mais enérgica.
O Finale é uma magnífica e monumental construção sonora, apoiado numa escrita frequentemente concertante e de fôlego sinfónico. Ele apresenta um tema de abertura que não poderia ser mais jovial e solar, ao qual se opõe um 2.º em notas repetidas. No vasto Desenvolvimento (secção central), reaparece o tema principal do 2.º andamento, que passará a ser um elemento motívico recorrente a partir daí e até final. Nova sucessão destes dois blocos temáticos precede uma Coda, na qual reaparecerão, quer o tema 1, quer, de novo, o tema do 2.º andamento, o qual se ouve primeiro em tonalidade menor (no violoncelo) e depois em maior, só aí dando lugar ao 1.º tema, que conclui.

Bernardo Mariano