26.06 SATURDAY 9:00pm

Recital of Lute and Vihuela

El Siglo de Oro, the Golden Age
Música Espanhola e Inglesa
do Renascimento
 
Hopkinson Smith Lute and Vihuela
 
Programme
 

Anthony Holborne (1545-1602)
Fare Thee Well 
      Muy Linda
      My Selfe 
      Mad Dog 

Luys de Narbáez (c.1500-1549)
      Paseavase el Rey Moro por la Ciudad de Granada 
      Veynte y dos diferencias de Conde Claros para discantar
      La Canción del Emperador; Mille Regres de Josquin
      Una Baxa de contrapunto
      Siete diferencias sobre Guarda me las Vacas
      Fantasía del quarto tono
      Dos Fantasias del primer tono por Ge sol re ut
      La Vuelta del Rey Moro
      Ya se asienta el Rey Ramiro

John Dowland (1563-1626)
Sir John Souch’s Galliard
      Preludio
      Lachrimae Pavan
      Fantasia 1 

::Programme Notes::

Espanha e Inglaterra protagonizaram ao longo da segunda metade do século XVI uma acesa rivalidade, de contornos políticos, económicos e religiosos, simbolizada pelas figuras de dois monarcas de forte personalidade: Isabel I, da dinastia Tudor, e Filipe II, dos Habsburgo. E, contudo, Filipe chegou a ser rei consorte de Inglaterra, após o seu casamento, em Julho de 1554, com Maria Tudor; e Maria Tudor rainha consorte de Espanha, após a subida ao trono de Filipe, em Janeiro de 1556. Mas o sonho de unir os reinos, e pelo caminho, fazer a Inglaterra regressar ao catolicismo, acabou com a morte de Maria, em Novembro de 1558. Filipe ainda sondou Isabel I sobre possíveis núpcias, mas esta recusou.
O recital de hoje traça uma panorâmica da música para instrumentos de corda dedilhada em ambos os reinos ao longo do século XVI, ilustrando-a com repertório destinado a dois instrumentos que gozaram de imensa popularidade em cada um desses países: o alaúde, na Inglaterra, e a vihuela, em Espanha. Unia-os a particularidade de atravessarem transversalmente a sociedade, tocados tanto por comuns plebeus, como por cortesãos e príncipes. Tal facto assegurava o sucesso das edições deste tipo de música. Ao mesmo tempo, era muito comum, ao tempo a prática do ‘canto al liuto’, ou seja, o cantor acompanhando-se ao alaúde (ou outro instrumento de corda dedilhada). Estamos, portanto, diante de uma música destinada a pequenos círculos, intimista por excelência.
O nome de John Dowland (1563-1626), autor de um importante repertório publicado entre a última década do reinado de Isabel I e a fase inicial do reinado de Jaime I (de cuja corte Dowland foi músico), é o que primeiro surge à mente quando se pensa em repertório inglês para alaúde solo ou voz e alaúde: as suas colecções de ‘songs’ e ‘ayres’ (termos usados indiferenciadamente para designar o mesmo tipo de composição), de ‘pavans’ e de ‘galiards’ (formas de dança) e, em particular, o tipo especial de pavana a que ele deu o nome de ‘Lachrimae’ (nas quais se pretende representar a variedade de emoções humanas que suscitam lágrimas) são ainda hoje presença obrigatória no repertório de alaúdistas e guitarristas.
mas também Anthony Holborne (c.1545-1602) teve papel muito relevante nesta cultura da corda dedilhada em terras inglesas: apesar de uma geração anterior a Dowland, a sua obra publicada coincide com a 1.ª fase de edições de obras do seu colega mais novo (década de 1590). Interessante é que a sua música publicada é dedicada, num caso, ao cistre (ou cítola) e, noutro, à ‘consort music’.
A representar Espanha e a vihuela*, neste recital, está Luys de Narváez (fl.1526-49), que se crê ter nascido em Granada por finais de Quatrocentos. A sua fama repousa sobre os ‘Seys libros del delphín’, que fez publicar em Valladolid, em 1538 e que inovam pela adaptação, que evidenciam, do estilo alaudístico italiano para a vihuela (incluindo o uso da tablatura). O repertório ali reunido por Narváez, além do idiomático derivado directamente do alaúde, apresenta várias transcrições de peças vocais polifónicas (sacras ou profanas) de compositores seus coetâneos ou pouco anteriores, bem como as primeiras variações da história da música ocidental (que Narváez chama de ‘diferencias’), estas em geral servindo-se de canções conhecidas popularmente como ponto de partida.

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Bernardo Mariano