18 JUN Sábado 21h30

Grande Auditório
Universidade Nova FCT (Caparica)

Mozart Fest

Orquestra de Câmara de Viena
 
 
::Programa::
 

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) Concerto para Piano e Orquestra N. 12 K. 414

     1. Allegro
     2. Andante
     3. Rondo. Allegretto

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) Sinfonia Concertante para Violino, Viola e Orquestra K. 364

    1. Allegro maestoso
    2. Andante
    3. Presto

::Notas ao Programa::

O Concerto para piano n.º 12 foi o primeiro que Mozart escreveu após se instalar como compositor ‘freelance’ em Viena, em 1782. Ele foi escrito no Outono desse ano, em conjunto com os n.º 11 (KV413)1 e n.º 13 (KV415).
Mozart falou destes concertos em carta ao seu pai, e das suas palavras se depreende que o seu propósito principal com estas obras foi o de seduzir o público vienense para a sua música – afinal de contas, recém-instalado em Viena e vindo da provinciana Salzburgo, interessava-lhe ganhar popularidade rapidamente –, visando agradar a entendidos e a amadores, àqueles pelos processos eruditos empregues, a estes pelo modo como “amaciava” esses mesmos processos sob um manto de ‘cantabile’ e de eufonia.
A instrumentação ainda não é provida de partes escritas (‘obligato’) para instrumentos de sopro (aqui: pares de oboés e de trompas, e fagote opcional), pelo que a sua utilização não é imprescindível, já que se limita a dobrar, em certos momentos, os instrumentos de corda. Na evolução futura do género nas mãos de Mozart – ele escreverá mais 14 concertos para piano até 1789/90 –, a inclusão de partes para madeiras e trompas (e, em vários casos, também de trompetes e timbales) e o respectivo tratamento como parceiros/interlocutores de pleno direito do instrumento solista ao mesmo título que as cordas, será a grande revolução e o grande contributo de Mozart para o género.
O andamento inicial dá já conta daquela efusividade melódica que virá a ser típica de tantos concertos de Mozart, com 3 temas principais. Já o andamento central tem bastantes parecenças com um andamento lento de Sonata para piano solo. O mais interessante é sem dúvida o Rondeau final, pelo tratamento muito original que Mozart aí faz da forma-refrão: de todo um Rondó convencional, antes uma espécie de jogo livre com elementos temáticos/melódicos, expostos seja pela orquestra, seja pelo solista.
A Sinfonia Concertante para violino, viola e orquestra, em mib Maior, KV364, é uma aproximação ao género do ‘concerto grosso’ (ou seja: ‘grande concerto’) barroco. Únicos precedentes na obra de Mozart de uma obra com essas características são o ‘Concertone para dois violinos, KV190’, de Maio de 1774 e o ‘Concerto para flauta e harpa, KV299’, de Abril de 1778.
Mozart regressara em Janeiro desse ano de uma prolongada viagem/digressão que tivera por principais paragens Mannheim e Paris, ambas cidades onde o género da Sinfonia concertante gozava de grande popularidade, e decerto terá vindo daí o desejo de escrever tal obra. Depois do KV364, Mozart não mais regressaria ao género.
A presente ‘Sinfonia Concertante’ foi escrita durante o Verão/início do Outono de 1779, em Salzburgo. A instrumentação requer, além das cordas, 2 oboés e 2 trompas. Nos solistas, é de notar que as cordas da viola estão “reafinadas” (o processo chama-se ‘scordatura’) meio-tom acima – ou seja: ré bemol-lá bemol-mi bemol-si bemol – para maior facilidade de execução, dada a tonalidade da obra.
Com esta obra, estamos realmente num reino da absoluta beleza. O ‘achado’ de Mozart foi o de prolongar o princípio concertante e fazer proliferar na orquestra (nas cordas agudas e graves; nos sopros, entre si ou com as cordas) os diálogos/contrastes estabelecidos entre os 2 solistas.
O 1.º andamento é uma forma-sonata com 2 temas principais apresentados pela orquestra, antes de os 2 solistas começarem a alternar ou a partilhar (dobrando-se) episódios solísticos. Perto do final, há uma ‘cadenza’ para ambos. No intenso andamento central (em dó menor), com a sua gravidade e inefável melancolia, é lícito ver a influência em Mozart do sensivelmente contemporâneo movimento literário ‘Sturm und Drang’ ou das tragédias de C. W. Gluck, com os solistas a sugerirem quase um dueto vocal no seu ‘jogo’ de cantilenas. O andamento final introduz enfim um ar mais festivo e descontraído – mais galante – a esta obra até aí tão ‘séria’.
Finalmente, diga-se que excertos desta obra surgem em filmes como ‘Violência e Paixão’, de Luchino Visconti; ‘África Minha’, de Sydney Pollack e ‘Amadeus’, de Milos Forman.

Notas
1 – apesar da numeração, o n.º 11 é cronologicamente o do meio
2 – este género tinha por marca distintiva apresentar dois ou mais solistas concertando (enquanto grupo ou entre si, enquanto solistas) com um efectivo orquestral. O exemplo mais famoso serão os seis ’Concertos Brandeburgueses’, de J. S. Bach
Bernardo Mariano