01 JUL 6ªfeira 21h30

CONVENTO dos CAPUCHOS

Schumann & Chopin  

Recital de Piano
 
 
::Programa::
 

Frédéric Chopin (1810-1849) Scherzo Op. 20 N. 1
Nocturne in E flat major, Op55, No.2
Nocturno Op. 27 N. 2
Fantasia-Improviso Op. 66
Valsa B. 56
Polonaise Op. 53

Robert Schumann (1810-1856) Estudos Sinfónicos Op. 13

::Notas ao Programa::

Chopin
Chopin define, com Schumann e Liszt, a essência do Romantismo pianístico. Numa época em que os pianos se aproximavam já dos instrumentos que hoje conhecemos, a música de Chopin representa também uma afirmação das virtualidades e peculiaridades dos pianos franceses do tempo, nos quais tocou.
A personalidade tímida, mesmo arredia; a constituição frágil e a saúde precária que o acompanhou toda a vida, condicionou as suas expectativas amorosas e o veio a vitimar aos 40 anos; a memória da Polónia natal, que abandonou aos 22 anos para não mais ver; a distância da família e dos amigos que deixou em Varsóvia; a cultura do canto lírico e da ópera em que foi formado. Todos foram factores que definiram Chopin enquanto criador e que impregnaram as suas criações.
E numa época em que o piano amiúde adquiria proporções orquestrais, ou servia princípios compositivos progressistas, a sua música para piano solo nasce do piano e vive no piano, jogando os parâmetros melodia, ritmo e harmonia com as possibilidades tímbricas e com as ressonâncias do instrumento, como ninguém antes dele fizera.

Nocturne in E flat major, Op55, No.2 (de 1833) está indicado ‘Larghetto’ e foi dedicado à mulher do seu dedicado amigo Camille Pleyel, que era uma pianista ‘de mão cheia’. Ela apresenta a típica forma tripartida, com cada repetição, quer de A, quer de B (esta, indicada: ‘sotto voce, pianissimo’) a surgir sempre ligeiramente modificada. Inesperada é a longa “ponte” que, saindo de B, prepara o regresso de A. O acompanhamento tem os também típicos intervalos espaçados em movimento ondulante.
De natureza similar é o Nocturno op. 27 n.º 2, em réb M (‘Lento sostenuto’), de 1835. Aqui, uma ondulação muito suave na mão esquerda “prepara” a entrada de um canto quase que suspenso na mão direita. Este Nocturno foge à costumeira forma ternária: é antes esse canto que é apresentado por três vezes, a cada uma com subtis modificações e pequenos desenvolvimentos. A Coda, etérea, perde-se no ar da noite.
O Scherzo n.º 1 (de 1831-33) está indicado ‘Presto com fuoco’ e, após o pórtico de 2 acordes suspensos, será esse carácter fogoso – quase demoníaco – a marca principal da secção A da obra, cujo material principal tem três segmentos: o 1.º, febril e ‘virtuose’; o 2.º pesado e patético; o 3.º ‘agitato’. A secção central (B), em si M, tem a indicação ‘Molto più lento, sotto voce e ben legato’ e está em completo contraste com o que a rodeia. Ela apresenta uma textura a 3 partes, com a melodia primeiro na camada interior e depois na superior, dentro de uma organização concêntrica. A transição para o regresso de A é original, com reintrodução dos acordes do pórtico inicial. O regresso de A (com as suas 3 subsecções) culmina numa ‘Coda’ de exacerbado virtuosismo.
A Fantasia-Improviso abre com um ‘Allegro agitato’ em dó# menor, apoiado sobre uma ondulação de harpejos. Uma ‘codetta’ leva ao ‘Moderato cantabile’ central, em réb M, em textura de melodia acompanhada. Regressa a secção A, em ‘Presto’ que transita para uma Coda que traz enfim o apaziguamento, reaparecendo aí o tema da secção B na mão esquerda, como uma memória distante.
A Polonaise em láb M, dita ‘Heróica’, é das obras mais famosas de Chopin. A uma Introdução a um tempo grandiosa e ominosa sucede a secção A, com um tema de tom heróico e poderoso. Separa-a da secção central (B) uma passagem ‘sostenuto’, no fundo derivada do material principal. B está em mi M e apresenta uma marcha marcial num efeito de aproximação progressiva. O regresso de A é de novo ‘atrasado’, mas aí por uma “digressão”, ligeira e algo circular. Uma apresentação simples de A precede a Coda maciça, com ‘descargas’ de som que a reaparição dos acordes marciais reforça.
A Valsa em mi menor (‘Vivace’), op. posth., só foi editada em 1868. Ela é obra de um Chopin de 19/20 anos, ainda em Varsóvia, e exibe o típico ‘style brillant’ da época. A forma é tripartida, com uma secção central (B) em mi Maior. Típico em Chopin é a subdivisão, como aqui, de cada secção em 2 segmentos que se sucedem concentricamente (em A:ababa; em B:ccdcdc). O regresso de A faz-se só com o 1.º segmento, com uma Coda a concluir.

Schumann
Estudos Sinfónicos
Dentro da magnífica obra pianística de Robert Schumann, os ‘Estudos Sinfónicos, op. 13 são o seu maior cometimento na forma-variação. Se observarmos que ele os escreveu aos 24 anos (entre Dezembro de 1834 a Janeiro de 1835), é impossível não pasmar diante de uma obra-prima tão evidente.
A obra foi editada como ‘XII Études symphoniques’ em 1837 e reeditada em 1852 (aí sob o nome ‘Études en forme de variations’), numa forma revista, que retirou os Estudos n.º 3 e n.º 9 da edição original. Quatro décadas depois, a edição completa das obras de Schumann (curada por Clara Schumann e Johannes Brahms) restaurava as peças retiradas da edição de 1852 e incluía as cinco variações deixadas de lado por Schumann aquando da 1.ª edição, adquirindo assim a obra a seguinte estrutura (possível): Tema – 16 variações/estudos – Finale1.
O título de ‘Estudos’ não nos deverá fazer esquecer que se trata primeiramente de Variações sobre o tema que se escuta de início, mas tratadas como se Estudos fossem.. Já o “sinfónicos” remete para o carácter da escrita: maciça, com vária exploração de registos e timbres, uso de texturas cheias e amplo recurso ao pedal de prolongação, como um piano pensado com paleta orquestral2.
O tema (‘Andante’), em “quadratura”, provém do barão Ignaz von Fricken, tio e tutor de Ernestine von Fricken (1816-44) – jovem de quem Schumann esteve brevemente noivo por altura da primeira redacção da obra. Schumann dá-lhe um carácter grave e fúnebre e carga retórica. A sua forma binária irá enformar todos os sucessivos estudos e variações. Para o ‘Finale’ (‘Allegro brillante’), Schumann serviu-se de uma romança da ópera ‘O templário e a judia’ (1829), de Heinrich Marschner, em que se faz um louvor à Inglaterra: um ‘chapeau’ de Schumann ao dedicatário da obra, o seu amigo e colega William Sterndale Bennett (1816-75)3, terminando com uma Coda grandiosa.

Notas
1 – Tal gera naturalmente alguma confusão na definição do que é o formato final desta obra, dependendo de cada intérprete a opção pela versão de 1837, de 1852 ou de 1837+variações adicionais (ed. 1893), sendo que também o local onde estas variações são inseridas varia.
2 – Mas, tratando-se de Schumann, a natureza da escrita e da obra não deixa de ser intrínseca e distintamente pianística.
3 – Tal levanta algumas questões em relação à data de composição deste ‘Finale’, dado que Schumann e Bennett não se conheceram senão no Outono de 1836, em Leipzig.
Bernardo Mariano