09 JUL Sábado 21h30

Grande Auditório
Universidade Nova FCT (Caparica)

Concerto de Encerramento

Beethoven Fest
 
 
::Programa::
 

Ludwig van Beethoven (1770-1827) Abertura “As Criaturas de Prometeus”, Op. 43

       “Ah! perfido”, Ária de Concerto para Soprano e Orquestra, Op. 65
       Triplo Concerto, para Violino, Violoncelo, Piano e Orquestra, Op. 56

       1. Allegro
       2. Largo
       3. Rondo alla Polacca
 
Notas ao Programa
Triplo Concerto para violino, violoncelo e piano e orquestra, em dó M, op. 56
O Triplo Concerto é de certa forma o menos celebrado dentre os sete concertos que Beethoven nos deixou. E, no entanto, que belezas guarda esta obra! Elas derivam antes de mais de um Beethoven que raramente soou tão despreocupado – e tão desinteressado em construir conflitos musicais. Esta é a obra de um Beethoven apostado tão-só em causar nos ouvintes prazer musical – e também visual, pela simples observação do “jogo” dos três solistas, entre si e com a orquestra. Sim, porque tal releva daquilo que torna esta obra única: o facto de se tratar de um concerto com três solistas! Outra marca: é um concerto sem ‘cadenze’, isto é: sem solos dos solistas junto à conclusão dos andamentos. Ou seja, música de câmara e música sinfónica fundidas numa só obra, com lugar de destaque dado ao violoncelo, que apresenta os temas sempre em primeiro lugar.
O Triplo Concerto data de 1803-04 e foi editado logo em 1804. A estreia fez-se primeiro em âmbito privado, no palácio do príncipe Lobkowitz, um dos benfeitores de Beethoven e dedicatário da obra, sendo que a estreia pública ocorreria apenas em Maio de 1808, no Augarten, em Viena.
O ‘Allegro’ inicial está na forma-ritornello (embora com algumas “aproximações” à mais habitual forma-sonata), esquema estrutural que Beethoven sem dúvida considerou mais apropriado para fazer “concertar” três solistas, dando-lhes igual exposição, e ao mesmo tempo contrapô-los à orquestra, sem com isso hipertrofiar o plano formal. Tal explicaria igualmente as características do material musical, feito de temas simples e compactos.
O ‘Largo’, em compasso ternário, é um daqueles momentos de quintessência beethoveniana: tudo ali é contemplação e recolhimento, num cenário “eliseico”! Uma transição por arpejos nos solistas leva a uma suspensão, da qual irá surgir uma nota repetida, que é a nota inicial do refrão do ‘Rondo alla polacca’ (ou seja: um “Rondó em ritmo de polonaise”), refrão que irá alternar com três episódios, concluindo a obra num registo de festiva alegria.
 
Ária de concerto ‘Ah! perfido’
Apesar do seu número de ‘opus’, que a coloca na vizinhaça imediata da 5.ª Sinfonia (seu op. 67, terminada em 1808), esta ária de concerto é bastante anterior, já que data dos primeiros meses de 1796, ou seja, o ano seguinte à publicação em Viena do seu opus 1 (três Trios com piano)! A disparidade deve-se a que só foi editada nove anos depois. Também adquiriu notoriedade esta obra por ter sido incluída no famoso concerto de 22 de Dezembro de 1808, em Viena, dirigido por Beethoven e no qual foram estreadas a 5.ª e 6.ª Sinfonias, entre várias outras obras. Nessa ocasião, deveria ter sido cantada pelo soprano Anna Milder, que estreara em 1805 e 1806 o papel de Leonore na 1.ª e 2.ª versões da ópera homónima de Beethoven (chamada ‘Fidelio’ a partir de 1814), mas um desentendimento fez com que a escolha viesse a recair sobre Josephine Killitschky, uma jovem de apenas 17 anos que fazia ali a sua estreia pública – e logo num concerto daquela importância! A falta de experiência e porventura de tempo para preparar adequadamente a obra fizeram com que as críticas não fossem muito positivas, embora lhe tenham elogiado a beleza da voz.
Mas voltando a 1796: também não se sabe quem estreou a obra então, sabendo-se apenas que Josepha Duschek, a grande amiga de Mozart de Praga, a cantou em Leipzig, em Novembro desse ano. Uma cópia da partitura que se encontrava no espólio de Beethoven à data da sua morte indica que a ária foi escrita para e dedicada à condessa Josephine von Clary und Aldringen, então com 18 anos e que era uma amadora de méritos vocais reconhecidos em Praga, mas uma sua possível interpretação da ária não está documentada. A referência a Praga deve-se a que Beethoven esteve nessa cidade entre Fevereiro e Abril de 1796, 1.ª paragem de uma digressão em que se fez acompanhar do seu patrono, o príncipe Karl Lichnowsky, através do qual teria fácil acesso à alta aristocracia de Praga, como os Clary-Aldringen.
A ária tem uma breve introdução orquestral que conduz a um ‘accompagnato’ (Recitativo), que lembra Gluck, após o que surge a ária propriamente dita, iniciada sobre as palavras: ‘Per pietà, non dirmi addio’, estruturada em secções contrastantes em ‘tempo’ (‘Allegro assai’ e ‘Più lento’). A breve conclusão orquestral apresenta uma curiosa ‘Harmoniemusik’ (música para sopros).
 
Abertura ‘As criaturas de Prometeu’
Esta é a peça que abre a única música de ballet que Beethoven escreveu (tirando um obscuro ‘Ritterballett’, escrito com 20 anos, ainda em Bona), entre 1800 e o início de 1801, para o bailado do mesmo nome, com história e coreografia (que não chegaram aos nossos dias) do napolitano Salvatore Viganò, mestre de ballet do Teatro Imperial, não se sabe para que ocasião. O bailado teve bastante sucesso na temporada de estreia, com quase 30 apresentações. Além da Abertura e do Final, Beethoven escreveu mais 15 números para esse ballet em 2 actos. A Abertura cedo se impôs, dada a sua força e a qualidade da sua orquestração (que inclui trompetes e timbales), que lembram momentos da 2.ª e da 4.ª sinfonias. Ela tem uma introdução ‘Adagio’ a que segue um ‘Allegro molto con brio’, conduzido pelos violinos, contendo 2 temas (o 2.º entregue às madeiras) e que às vezes lembra um ‘perpetuum mobile’.
 
Bernardo Mariano