@Luis Catarino
INÊS DE MEDEIROS
Presidente da Câmara Municipal de Almada

Jean de La Bruyère, autor francês do século XVII, escreveu: “É preciso rir antes de ser feliz, para não morrer sem nunca ter rido”.
Numa altura em que o ódio se serve do nosso cansaço perante o estado do mundo, é refrescante ver que o Festival dos Capuchos se propõe, este ano, olhar para a dualidade — ou complementaridade — entre o amor e o humor; entre os afetos e os estados de espírito; entre o lirismo e a ironia, a devoção e o riso, a paixão e a invenção.

Não podemos esquecer essas nossas virtudes, que marcam a diferença perante todos os outros. E, por isso, vamos naturalmente relembrar o humor — o quão essencial é estarmos juntos, bem-dispostos, leves, prontos para receber o verão depois de um período desafiante e difícil.
Nesta edição, o Festival dos Capuchos traz também um encontro extraordinário entre a música e a palavra dita. A palavra terra de todas as nossas emoções e sentimentos. Será que sentimos realmente o que não sabemos nomear?

Mas falar de humor e de amor remete-nos inevitavelmente para essa figura única que é Charlie Chaplin.
É por isso que, mais do que relembrar aqui toda a programação que poderão descobrir neste programa, prefiro terminar com as palavras finais de Chaplin em “O Grande Ditador”, essa obra-prima capaz de reunir amor, humor e dor.
Esse discurso que nos habituamos tanto a ouvir em pequenos excertos que talvez já não o entendamos na sua beleza e na exigência do seu convite.
Para vencer a dor, Chaplin propõe-nos o amor. Um amor militante. Um amor que não desiste de sorrir — e de rir.

Rir, para não morrer sem nunca ter rido.
Rir para continuar a amar.

Bom Festival.

 

“Lamento, mas não quero ser imperador. Não é essa a minha profissão. Não quero governar nem conquistar ninguém. Gostaria de ajudar toda a gente, se possível — judeus, gentios, negros, brancos.
Todos queremos ajudar-nos uns aos outros. Os seres humanos são assim. Queremos viver da felicidade dos outros — não da sua miséria. Não queremos odiar nem desprezar ninguém.
Neste mundo há espaço para todos, e a boa terra é rica e pode prover para todos. O caminho da vida pode ser livre e belo, mas perdemos o rumo.
A cobiça envenenou as almas dos homens, ergueu barricadas de ódio no mundo, fez-nos marchar a passo de ganso para a miséria e o derramamento de sangue.
Desenvolvemos a velocidade, mas enclausurámo-nos. As máquinas, que dão abundância, deixaram-nos na necessidade. O nosso conhecimento tornou-nos cínicos; a nossa inteligência, duros e cruéis.
Pensamos demais e sentimos de menos. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de bondade e gentileza.
Sem estas qualidades, a vida será violenta e tudo se perderá.
O avião e o rádio aproximaram-nos. A própria natureza destas invenções clama pela bondade nos homens — clama pela fraternidade universal, pela união de todos nós.
Mesmo agora, a minha voz chega a milhões em todo o mundo — milhões de homens, mulheres e crianças desesperados, vítimas de um sistema que faz os homens torturarem e aprisionarem inocentes.
Aos que me ouvem, digo: não desesperem. A miséria que está sobre nós é apenas a passagem da cobiça — a amargura de homens que temem o progresso humano.

O ódio dos homens passará, e os ditadores morrerão, e o poder que tiraram ao povo regressará ao povo.”

FILIPE PINTO-RIBEIRO
Director Artístico do Festival de Música dos Capuchos

Bem-vindos ao Festival dos Capuchos 2026!

Após cinco edições que, desde o seu ressurgimento em 2021, afirmaram o Festival dos Capuchos como um evento de excelência e um espaço de diálogo entre culturas, tempos e linguagens, propomos agora uma reflexão sobre aquilo que nos é mais íntimo e universal: os amores e os humores, os afectos e os estados de espírito.

Sob o tema “Amores & Humores”, o Festival dos Capuchos 2026 inspira-se na dualidade e complementaridade entre o amor – nas suas múltiplas formas, humanas e divinas – e os “humores” da alma, esses movimentos subtis que oscilam entre o lirismo e a ironia, a paixão e a invenção, a devoção e o riso.

Entre 23 de Maio e 24 de Junho, Almada volta a afirmar-se como palco de um dos mais relevantes eventos culturais do país. Os concertos terão lugar no Convento dos Capuchos, matriz espiritual do Festival, mas também noutros espaços da cidade, como o Teatro Municipal Joaquim Benite, o Auditório Fernando Lopes-Graça e o Parque da Paz, onde se realizará, pela primeira vez, uma gala de ópera ao ar livre.

Vários são os destaques internacionais desta edição: o regresso da excelente Orquestra de Paris “Consuelo”, protagonista do concerto de abertura; o espectáculo do 30.º aniversário do aclamado septeto austríaco Mnozil Brass, frequentemente apelidado de “Monty Python da música clássica”; os concertos do Quarteto de Leipzig, considerado um dos melhores quartetos de cordas mundiais, e do premiado grupo vocal SLIXS, em estreia em Portugal. O Festival receberá também solistas de renome mundial, como os cantores Anna Samuil, Peter Sonn e Mandy Fredrich, as violinistas Viviane Hagner e Diana Tishchenko, os violoncelistas Christian Poltéra, Victor Julien-Laferrière e Kyril Zlotnikov, o clarinetista Pascal Moraguès e o pianista Eldar Nebolsin.

A presença nacional faz-se sentir com nomes de referência como: a Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida por Pedro Neves, o DSCH Schostakovich Ensemble, em colaboração com a actriz Maria Rueff, o Officium Ensemble, dirigido por Pedro Teixeira, o pianista Nuno Vieira de Almeida e a actriz Rita Blanco, entre outros. Destacam-se ainda dois concertos de cruzamento entre o jazz e o fado, com a premiada cantora Maria Mendes, radicada há vários anos nos Países Baixos, e com o regresso ao Festival do pianista Júlio Resende e do guitarrista Bruno Chaveiro. Fiel à sua vocação, o Festival mantém-se como um espaço de apresentação de jovens talentos, como a flautista Sónia Pais, a percussionista Sofia Costa, a cantora Raquel Mendes e a cravista Rafaela Salgado.

Nesta edição, as já emblemáticas Conversas dos Capuchos, com curadoria de Carlos Vaz Marques, são dedicadas ao centenário da morte de Camilo Pessanha, aos 300 anos da publicação de “As Viagens de Gulliver” e a uma reflexão literária sobre o tema do Festival.

Outras actividades paralelas enriquecem a programação, como: as conversas pré-concerto denominadas Prelúdios dos Capuchos; a Caminhada dos Capuchos, na Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica; a Visita Guiada ao património histórico do Convento dos Capuchos; e as Masterclasses dos Capuchos, destinadas a estudantes de música.

Com especial entusiasmo, apresentamos, pela segunda vez, a iniciativa Ópera para Crianças, desta feita com a A Flauta Mágica, de Mozart, numa produção dirigida por António Wagner Diniz.

A realização do Festival dos Capuchos 2026 é possível graças ao apoio, em primeiro lugar, da Câmara Municipal de Almada, do mecenas BPI/Fundação “la Caixa” e da Direcção-Geral das Artes. O nosso agradecimento também aos parceiros Companhia de Teatro de Almada, Âmbito Cultural do El Corte Inglés e RTP Antena 2.

O Festival dos Capuchos 2026 atravessa épocas e fronteiras, entre o sagrado e o profano, o erudito e o popular, o barroco e o jazz, o romantismo e a contemporaneidade. “Amores & Humores” é, afinal, um retrato da condição humana: amamos, sofremos, sonhamos, ironizamos, celebramos. A música – talvez a mais subtil das artes – é capaz de traduzir todos esses estados com uma verdade que ultrapassa as palavras e nos devolve à essência do sentir.

Convidamos-vos a percorrer connosco este itinerário de emoções do Festival dos Capuchos 2026 – onde o amor canta, o humor sorri e a arte nos recorda a profundidade e a beleza da vida.