17 JUN 6ªfeira 21h30

Grande Auditório
Universidade Nova FCT (Caparica)

Concerto de Abertura

Viena Clássica
Orquestra de Câmara de Viena
 
 
::Programa::
 

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) Concerto para Violino e Orquestra N. 2 K. 211 (1921-1982)

       1. Allegro moderato
       2. Andante
       3. Rondo. Allegro

Franz Joseph Haydn (1732-1809) Concerto para Violoncelo e Orquestra N. 1 Hob.VIIb:1
      
       1. Moderato
       2. Adagio
       3. Allegro molto

Franz Joseph Haydn (1732-1809) Sinfonia N. 45 “Les Adieux” Hob.I:45
      
      
1. Allegro assai
       2. Adagio
       3. Minuet. Allegretto
       4. Finale. Presto – Adagio

::Notas ao Programa::
 

A todas as obras presentes neste programa rodeia uma ponta de mistério: para quem ou para que efeito terá Mozart escrito este e outros três Concertos para violino num curto espaço de tempo? Quanto ao 1.º Concerto para violoncelo de Haydn, esteve desaparecido durante 200 anos. Por fim, como se terá lembrado Haydn de escrever uma obra tão bizarra como a Sinfonia 45 e como se terá passado realmente a estreia?

Haydn
O manuscrito do Concerto foi descoberto pelo então jovem musicólogo checo Oldrich Pulkert no Museu Nacional de Praga em 1961, entre o espólio provindo da antiga biblioteca dos condes de Kolowrat-Krakowsky (situada no seu antigo castelo de Radenin, perto de Tábor, no sul da Boémia), família que se distinguiu historicamente enquanto altos funcionários da administração imperial e militares do exército austríaco. Como e porque terá ido lá parar, não se sabe. Um ano depois, a 19 de Maio de 1962 dava-se a reestreia da obra, em Praga.
O Concerto datará do primeiro lustro da década de 60 (séc. XVIII) e terá sido destinado a Joseph Franz Weigl, violoncelista na Capela Musical dos príncipes de Esterházy1, em Eisenstadt, da qual Haydn servia como vice-director musical desde o Verão de 1761 (só será mestre de capela titular em 17662, após a morte do incumbente Georg Joseph Werner).
Escutando a obra e sobretudo a parte solística, não podemos deixar de confirmar e admirar os dotes virtuosísticos de Weigl, já que Haydn exige mesmo muito do seu solista, principalmente nos andamentos extremos: desenhos escalares muito rápidos, exploração do registo agudo do instrumento, alternância brusca entre registos agudo e grave, notas repetidas em andamento rápido, uso de cordas quádruplas, etc. Descanso providencia apenas o Adagio central (sem sopros), que retém algo da solenidade e gravidade dos ‘Adagi’ barrocos.
A Sinfonia 45, além de obra artística de primeiro quilate, é também uma obra-prima de diplomacia artística. A fiar nos relatos que nos chegaram, ela foi a chave que resolveu uma situação só entendível no quadro das relações de tipo feudal que subsistiram até final do Antigo Regime: o príncipe tinha por regra levar a sua orquestra para a sua residência de Verão (ver nota 2), mas não as famílias dos músicos, que ficavam em Eisenstadt. Nesse ano de 1772, o príncipe (Nicolau I) demorou-se Outono dentro em Esterháza, os músicos ficaram descontentes e manifestaram-no ao seu mestre de Capela. E Haydn “saiu-se” com esta sinfonia, em que, no último andamento, par a par, os músicos da orquestra deixam de tocar, levantam-se e vão-se embora, ficando no final apenas 2 violinos3, tocando ‘pianissimo’ e com surdina! O perspicaz príncipe, que assistia a todos os concertos, diante de tal gesto, percebeu a “mensagem” e no dia seguinte anunciou o regresso ao palácio citadino em Eisenstadt. Um golpe de génio!
Na tonalidade de fá# menor (único exemplo conhecido numa sinfonia do séc. XVIII), ela admite outras extrapolações programáticas, como o tema inicial do 1.º andamento expressar a insatisfação dos músicos, ou o 2.º andamento representar o seu aborrecimento por estarem retidos em Esterháza, e mesmo o mais cortesão Minuete-Trio é sujeito a “subversão”. Mas é no ‘Finale’ que se dá a “revolução”: o habitual andamento em tempo rápido pára subitamente e dá lugar a um ‘Adagio’ em que, após poucos minutos, começa a tal debandada progressiva dos músicos. Inaudito!

Mozart
Quase contemporâneo é o Concerto KV211 de Mozart, escrito aos 19 anos quando Wolfgang estava ao serviço do príncipe-arcebispo de Salzburgo. Ele é conhecido como ‘o pequeno ré M’, para o diferenciar do Concerto n.º 4, KV218. Mas porventura também porque é uma obra mais modesta que os três concertos que se lhe seguiram, escritos no mesmo 2.º semestre do ano de 1775 e que são de outra ordem artística4.
Não se sabe se Mozart tinha um destinatário em vista, ao escrever estas obras, ou se as escreveu para ele próprio assumir o papel de solista com a orquestra da corte de Salzburgo. E também não se sabe em que âmbito terão estas obras sido ouvidas pela primeira vez (tal como se desconhecem datas de estreia), sendo que tanto podem ter sido ouvidas num âmbito profano, como num concerto em igreja (aí, como ‘intermezzi’).
Atipicamente para Mozart, o 1.º andamento é mais rítmico que melódico. O Andante privilegia o ‘cantabile’ num ambiente de grande serenidade, quase elisíaco, com judicioso uso dos cromatismos na mais sombria secção central. O Finale dá mais “trabalho” de virtuosidade ao solista, no quadro de uma música cujo espírito anda próximo dos ‘Divertimentos’ e ‘Serenatas’ que Mozart escreveu por estes anos.
Notas
1 – Weigl entrou para a Capela dos Esterházy por recomendação de Haydn e ali permaneceu até 1769, quando se mudou para o Teatro da Porta da Caríntia, em Viena
2 – 1766 é também o ano da inauguração de Esterháza, o palácio-residência de verão dos príncipes (junto à ponta sul do lago Neusiedler), que assumirá doravante um papel central na actividade musical de Haydn
3 – na ocasião, o próprio Haydn (“dando a cara” pelos seus músicos) e o seu concertino Tommasini.
4 – Mozart não escreveria mais Concertos para violino após 1775, tão-só a Sinfonia Concertante, para violino e viola (de 1779)
Bernardo Mariano