10 JUL Domingo 19h00

CONVENTO dos CAPUCHOS

Poslúdio dos Capuchos

Variações Goldberg 3
 
Adrian Brendel Violoncelo
 
 
Johann Sebastian Bach (1685-1750) Variações Goldberg BWV 988
     — Ária, 30 Variações e Ária da capo
(Versão para Trio de Cordas de Dmitry Sitkovetsky)
 
::Notas ao Programa::
 
Goldberg 3
Originalmente intitulada ‘Ária com diversas variações para cravo de dois manuais’, a obra que hoje conhecemos como ‘Variações Goldberg’ deve o seu nome a uma história apócrifa, e certamente imaginosa, relatada por Nikolaus Forkel (1749-1818) na sua biografia do compositor, publicada em 1802. Aí nasce a estória da obra que Bach teria escrito para que Johann Gottlieb Goldberg (1727-56), que foi seu aluno, amenizasse a persistente insónia do conde Kayserlingk – legado diplomático da Rússia junto da corte de Dresden –, do qual Goldberg era cravista privativo.
Seja como for, foi sob o nome de ‘Variações Goldberg’ que esta obra passou à história, sendo hoje uma das mais míticas composições do repertório para instrumento de tecla. No entanto, a sua presença no repertório corrente tem apenas um século, muito graças a paladinos como Rudolf Serkin, Claudio Arrau e Wanda Landowska, que começaram a integrar a obra em programas de recital no período entre-guerras, após os exemplos pioneiros de Ferruccio Busoni e Vianna da Motta. Mas certamente que a personalidade mais famosamente ligada a esta obra é o mítico pianista Glenn Gould (1932-82), cuja primeira gravação da obra, em 1955 (a estreia discográfica de Gould), teve um tal impacto que colocou em definitivo as ‘Goldberg’ no repertório pianístico.
Hoje, as ‘Goldberg’ são obra icónica da música ocidental, com dezenas de versões, arranjos e transcrições. Estamos perante uma obra de absoluta beleza, como também diante de uma das mais complexas e completas obras jamais escritas para o cravo. Como alguém disse, elas são “um cubo de Rubik de invenção e de arquitectura”.
Como dissemos acima, trata-se de uma ‘Ária com diversas variações’. A ária em questão tem existência prévia e figura num caderno de anotações de Ana Madalena Bach da década de 1730. É uma Sarabanda em sol M, de abundante ornamentação ao gosto francês, composta de duas partes de 16 compassos cada, sendo cada uma repetida.
A ela seguem-se 30 variações, guardando toda a estrutura em duas partes repetidas (AABB), após o que regressa a ária que tudo iniciara, fechando o círculo.
A obra foi primeiramente editada em 1741, em Nuremberga, sendo que 19 exemplares chegaram aos dias de hoje. Por não haver manuscrito autógrafo, adquiriu particular importância a cópia dessa edição que pertenceu ao próprio Bach, descoberta apenas em 1975, em Estrasburgo, e hoje preservada em Paris, na Biblioteca Nacional: ela contém numerosas anotações e correcções do punho do compositor, o que faz dela a fonte primeira sobre esta obra.
O particular, aqui, é que a melodia da ária em nada serve as variações subsequentes, mas antes apenas o seu baixo, mormente as primeiras oito notas do mesmo, cuja proveniência muitos crêem ter vindo de uma obra de Händel (‘Chaconne com 62 variações’) editada em Amesterdão em 1732, que Bach decerto conheceria. Diga-se em todo o caso que essas mesmas oito notas são muito semelhantes ao famoso ‘basso di Ruggiero’, usado como base para composições desde o Renascimento. Portanto, é o baixo o verdadeiro sujeito das Variações.
Falámos acima da reaparição final da ária como conclusão de um círculo. Mas numa obra como as ‘Goldberg’, ela pode ser também tomada como reinício do círculo, sempre e sempre. Pois esta é uma música sem início nem fim, sem ponto culminante e sem resolução. Une-a apenas um sentimento, um espírito comum, uma “ideia” que é explorada e tratada de todos os ângulos possíveis, numa súmula abrangente da arte barroca e da arte do contraponto como só Bach seria capaz de realizar.
Regressamos a Glenn Gould para finalizar. Pois foi sob o “manto inspirador” da sua segunda gravação das ‘Goldberg’ (de 1981) que o violinista Dmitri Sitkovetsky (n. 1954) realizou em 1984 a presente transcrição para trio de cordas (revista em 2009), que dedicou à memória do grande pianista canadiano, falecido pouco após essa gravação.